A Copa do Mundo e a economia da experiência
Nas últimas semanas, vimos pessoas desconhecidas se abraçarem em diferentes partes do mundo. Torcedores que nunca haviam se encontrado antes se conectaram, dividindo alegria e frustração em estádios, bares e ruas de cidades como Nova York, Los Angeles e Kansas City. Esse fenômeno é possível graças à Copa do Mundo, que vai além do esporte e reflete uma tendência crescente do comportamento do consumidor chamada economia da experiência.
A retomada da vida real e seus efeitos no consumo
Essa movimentação começou a tomar forma em 2021, quando o mundo reabriu após o isolamento imposto pela pandemia. Uma geração que ficou meses confinada passou a buscar experiências com uma intensidade que surpreendeu economistas. O espírito “you only live once” (você só vive uma vez) voltou a ganhar força, levando jovens a priorizarem flexibilidade no trabalho e o consumo imediato em vez de investimentos a longo prazo, como a compra de imóveis.
Desde então, os dados confirmam essa direção. Plataformas de streaming tiveram crescimento desacelerado, enquanto cinemas registraram alta na frequência, especialmente entre a geração Z e os millennials, que foram em média sete vezes ao cinema no último ano. O interesse não está apenas no filme, mas na vivência social da sessão. O mercado de shows ao vivo segue essa mesma tendência, com a Live Nation, principal empresa do setor nos Estados Unidos, vendendo 4% mais ingressos em 2025. Projeções da Goldman Sachs indicam crescimento anual acima de 7% para a indústria musical global até 2030.
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Fonte: curitibainforma.com.br
O papel das restrições digitais e o valor da experiência presencial
Uma mudança importante para essa guinada está na restrição do acesso de adolescentes às redes sociais. Países como Austrália lideram essa iniciativa, adotando medidas de verificação de idade e consentimento parental. No Brasil, uma lei limita o uso de celulares nas escolas públicas e privadas. Isso reforça a percepção de que a experiência na vida real, apesar de complexa e custosa, é insubstituível e mais valiosa do que qualquer interação digital criada por inteligência artificial.
A Copa do Mundo como laboratório da economia da experiência
A Copa do Mundo é o maior exemplo desse fenômeno global. Segundo o UBS, mais de 6 bilhões de pessoas acompanham o torneio de alguma forma. A edição atual tende a ser a mais lucrativa da história, com estimativa da Bloomberg apontando cerca de US$ 9 bilhões em receitas para a Fifa e aproximadamente US$ 80 bilhões movimentados em turismo, hotelaria, varejo e publicidade. Nos Estados Unidos, cada jogo da Copa tem audiência comparável à do Super Bowl.
Desafios do acesso e os riscos para o futebol
Entretanto, cresce uma tensão nesse cenário. O ingresso médio do Super Bowl deste ano chegou a US$ 8.200, e assistir a um jogo da Copa no estádio tornou-se uma realidade restrita a poucos. O modelo de preços dinâmicos e a revenda transformaram a compra de ingressos em um mercado exclusivo, afastando o torcedor médio. Isso pode levar à percepção do estádio como um espaço reservado a um público VIP, ameaçando a essência do esporte, que sempre dependeu da paixão popular.
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Fonte: londrinagora.com.br
Comunidade e emoção compartilhada além do estádio
Por outro lado, muitas das emoções dos torcedores acontecem diante da tela, mas em ambientes coletivos, com amigos e familiares. A palavra-chave é comunidade. O futebol consegue o que poucas instituições conseguem: unir pessoas ao redor do mundo, superar diferenças políticas e sociais e proporcionar momentos de união, mesmo diante de desafios nos países-sede e nas próprias seleções.
Até o momento, a Copa deixa imagens marcantes, como a festa dos escoceses, a força da Noruega e a civilidade dos japoneses, que se despediram do público após o jogo contra o Brasil. O gesto dos iranianos, que deixaram uma mensagem de agradecimento pela hospitalidade no vestiário em Los Angeles, reforça o poder do futebol de gerar empatia, cooperação e laços que vão além do esporte.
O futebol, afinal, é uma permissão para abraçar estranhos, celebrando a experiência coletiva e o encontro entre pessoas que, por algumas horas, compartilham emoções e histórias.
