Um Encontro Cultural entre Continentes
A série ‘Diaspóricas’ destaca o protagonismo das mulheres negras na música e no cinema do Centro-Oeste brasileiro. O projeto, que já conta com três temporadas disponíveis, se expande agora para além-mar, atravessando o oceano Atlântico rumo a Cabo Verde. A quarta temporada está em fase de pós-produção e promete trazer novas perspectivas sobre a cultura afrodescendente.
A idealizadora do projeto, Ana Clara Gomes, enfatiza a importância desse retorno às raízes africanas para a diáspora negra. “O retorno à África é uma necessidade para que possamos nos assentar e entender nossas identidades através das memórias ancestrais do continente-mãe. O projeto é uma ponte que estabelece essa conexão vital”, explica em comunicado enviado à imprensa.
Mais do que uma simples viagem, a série promove encontros significativos, repletos de trocas culturais. “Atravessamos o Atlântico esperando por experiências que representam um retorno às nossas origens. São momentos de reencontro com memórias que nos foram tiradas, bem como com filosofias que fazem parte da nossa história”, acrescenta.
Oralituras: A Voz das Mulheres de Cabo Verde
Guiada pela temática “Oralituras”, a nova temporada de ‘Diaspóricas’ visa registrar as tradições orais e fortalecer a voz das mulheres africanas. As gravações ocorreram em locais emblemáticos como Praia, Cidade Velha e Tarrafal, apresentando artistas de grande renome tanto em Cabo Verde quanto internacionalmente. Dentre eles, destaca-se a talentosa Zul Alves.
Reconhecida como uma das vozes mais inovadoras da cena musical cabo-verdiana, Zul Alves traz em seu trabalho uma fusão de raízes tradicionais com novas tendências. Seu álbum, intitulado *Buska*, é um exemplo perfeito dessa mistura, combinando diferentes ritmos do arquipélago. “Participar da série ‘Diaspóricas’ foi uma experiência incrível. Ver brasileiros explorando as histórias de mulheres negras e artistas em Cabo Verde foi profundamente tocante e proporcionou momentos de reflexão sobre minha identidade como mulher, artista negra e cabo-verdiana”, reflete a cantora sobre sua participação.
Além de Zul, a série contou com a presença de outras artistas como Fattú Djakité e Kady, que realizou gravações em Lisboa. A conexão musical entre Brasil e África se fez ainda mais forte com a participação da brasileira Nara Couto, que se encontrou com o grupo de batucadeiras Delta Ramatxada, representantes do tradicional ritmo cabo-verdiano chamado batuku. O projeto recebeu apoio do Centro Cultural Brasil Cabo Verde, o que fortaleceu ainda mais esse elo cultural.
Transformações Culturais Além-Mar
Mais do que simplesmente documentar, ‘Diaspóricas’ busca promover um verdadeiro intercâmbio cultural. Durante as gravações, realizadas entre 25 de junho e 11 de julho, uma equipe reduzida do Brasil viajou a Cabo Verde. Nesse período, o projeto promoveu exibições de episódios das temporadas anteriores, seguidas de rodas de conversa e a exibição de filmes do coletivo Nhãnha, composto por cineastas e pesquisadoras cabo-verdianas ligadas ao ambiente acadêmico, reforçando assim a troca entre realizadoras dos dois países.
A experiência no continente africano teve um impacto profundo sobre Juliana Cordeiro, fotógrafa da série. “Participar de ‘Diaspóricas’ foi transformador, não só como fotógrafa, mas como mulher negra. Pisar em Cabo Verde me fez sentir uma conexão com partes de mim que eu nunca havia reconhecido antes. Foi como se a terra me acolhesse, trazendo à tona memórias que meu corpo já conhecia, mesmo sem nunca ter estado lá. Fotografar mulheres cabo-verdianas, artistas e mães me fez perceber que meu trabalho transcende a imagem”, compartilha Juliana sobre sua experiência.
