Uma Exposição que Transcende o Medo
A exposição intitulada “Quem é pra ser já nasce”, da fotojornalista Ana Mendes, permanece em cartaz até 20 de fevereiro em Belém do Pará. Essa iniciativa é resultado do Prêmio Funarte Marc Ferrez, considerado o maior reconhecimento da fotografia no Brasil, e reflete um trabalho desenvolvido ao longo de quase um ano. A mostra conta com 24 fotografias em preto e branco e entrevistas com 10 mulheres indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu e assentadas da reforma agrária do Maranhão. Essas mulheres são líderes em suas comunidades e enfrentaram ou enfrentam ameaças de morte por suas lutas em defesa da terra, da natureza e da sobrevivência cultural de seus povos. A obra também inclui um autorretrato de Ana, que se tornou alvo de criminosos por seu envolvimento na luta em prol da Amazônia.
Nesta trajetória de consagração, surge uma reflexão: a fotógrafa Ana Mendes, minha filha, guardou segredos que agora venho descobrindo por meio de entrevistas e relatos sobre sua obra. O ponto de partida foi uma pergunta simples, mas profunda: “o que vem depois do medo?”. Esta questão se tornou um tema central nas conversas com mulheres que sofreram ameaças de morte. Ana, por sua vez, vivenciou um período de perseguição em 2019, em São Luís do Maranhão, por homens em um carro, após cobrar publicamente ações do governo sobre os ataques ao povo Akroá Gamella.
Um dos momentos mais marcantes ocorreu quando ela recebeu a mensagem ameaçadora de seus perseguidores: “Eu vou te parar agora, aqui e agora!”. Essa ameaça foi uma resposta à sua demanda por uma ação governamental em relação ao inquérito que investigava os ataques ao povo Akroá Gamella, que em 2017 enfrentou um violento ataque de fazendeiros, resultando em feridos e mutilações. Na época, Flávio Dino era o governador do Maranhão e Jair Bolsonaro havia recém-assumido a Presidência da República. Nesse contexto, Ana percebeu a solidão e a falta de apoio que a cercavam.
Pjih-cre Akroá Gamella, a primeira mulher retratada na exposição, representa a luta de muitas. Ela é guardiã de uma casa na área retomada de seu povo, situada na Baixada Maranhense. Com três filhos pequenos, Pjih-cre viveu sob o olhar ameaçador dos fazendeiros. Ela foi fundamental na transmissão de lições sobre a luta e o medo a Ana, que buscou entender como lidar com as emoções que surgiram em sua vida após sofrer ameaças. “Eu fui atrás dessas mulheres pra me aconselhar, tentar entender o que eu faria com todos os sentimentos que passaram a habitar em mim”, compartilha Ana.
Pjih-cre reafirma a importância da força feminina em sua história, destacando que sua luta é, acima de tudo, uma luta pela vida. No último sábado, ao observar as fotografias na associação cultural Fotoativa, em Belém, ela refletiu sobre a relação entre ela e Ana, que vai além das lutas territoriais. A frase que empresta o título à exposição é um testemunho da continuidade dos saberes e lutas que são passados de geração para geração, aprendidos com mães, avós e ancestrais.
O tema da exposição também se conecta ao projeto de doutorado de Ana na Universidade Federal do Pará (UFPA). “Sem perceber, já estava imersa nesse trabalho. Minha condição é infinitamente mais simples do que a de mulheres que lutam por suas terras, mas, ao conversar com elas, busco entender a mim mesma”, explica. Ana deseja ressaltar a força dessas mulheres, que se levantam todos os dias para cuidar de suas famílias e lutar pela natureza e por seus direitos.
Embora tenha cogitado desistir da fotografia, Ana encontrou forças para seguir. Desde o início, a relação entre ela e Pjih-cre foi marcada por um episódio em que se encontraram em um banheiro durante uma conversa intensa sobre medo e proteção. A indígena Akroá Gamella, conhecida pela sabedoria e força, assegurou a Ana que ela tinha proteção e que ninguém poderia lhe fazer mal. Essa afirmação trouxe a Ana uma calma que ela não conhecia antes.
Os dados sobre violência no campo são alarmantes, com recordes de assassinatos vinculados ao avanço do agronegócio. Segundo o Relatório de Conflitos no Campo no Brasil, divulgado em abril de 2025, a região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) é a mais afetada, registrando 415 conflitos por terra, o que representa um aumento significativo em relação aos anos anteriores. Contudo, 2024 foi o ano com menos assassinatos na última década, embora 62% dos casos tenham ocorrido em áreas de expansão do agronegócio, onde as ameaças são constantes.
Refletindo sobre a relação com sua filha, surge a pergunta: ao ocultar os sentimentos de medo e as ameaças que a afligiam, o que Ana desejava evitar? Teria ela subestimado a capacidade emocional da mãe para lidar com a situação? Essas questões permeiam a narrativa de luta e resistência que Ana Mendes expressa em sua obra.
Em meio ao caos, é um alívio ver a força e a qualidade de vida que Ana, minha filha, busca construir. A coragem é fundamental na luta contra o medo e para exigir do Estado que cumpra sua obrigação de garantir a vida de todos. É essencial que continuemos a lutar por justiça e por políticas públicas que combatam as estatísticas que envergonham o Brasil.
