A Importância da Educação Ambiental nas Unidades de Conservação
Como bem destaca Nêgo Bispo, “o ambiente não precisa de nós, nós é que precisamos dele”. Essa reflexão nos remete a um conceito mais amplo da Educação Ambiental, que transcende a simples discussão sobre reciclagem ou a distribuição de panfletos informativos. Enraizada em uma perspectiva crítica, essa prática se configura como uma ação política, coletiva e contínua, especialmente em locais como as Unidades de Conservação (UCs) federais. No Dia Mundial da Educação Ambiental, celebrado em 26 de janeiro, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) apresenta experiências que demonstram que, além de educar sobre questões ambientais, é essencial promover um diálogo eficaz com os territórios e seus habitantes.
Dentro das UCs, a Educação Ambiental se materializa no cotidiano da gestão e nas interações com as comunidades vizinhas. O objetivo é que essas populações não apenas conheçam, mas compreendam a relevância das áreas protegidas, desenvolvendo uma percepção crítica acerca das questões socioambientais e participando ativamente em ações de proteção ao meio ambiente.
Conselhos como Espaços de Deliberação
Um dos principais ambientes para essa interação é o Conselho das UCs, que serve como um fórum onde diferentes atores podem debater conflitos e buscar soluções coletivas. A atuação do ICMBio visa ampliar a participação social na gestão das unidades, fortalecendo a legitimidade das decisões tomadas, principalmente em contextos marcados por desigualdades históricas e pela marginalização de certos grupos sociais.
Ao reconhecer que o conhecimento vai além do saber técnico-científico, as ações de Educação Ambiental do ICMBio procuram valorizar os saberes das comunidades locais e dos povos tradicionais. Como salienta Bernal, coordenador de Educação Ambiental e Formação Cidadã do Instituto (COEDU), “esses grupos têm conhecimentos que são igualmente valiosos para a conservação ambiental, e, portanto, precisam ser ouvidos e integrados nos processos de gestão ambiental pública”.
A Educação Ambiental como Prática Política
Bernal ainda enfatiza que “os educadores ambientais do ICMBio, junto a todos os envolvidos nesse desafio, estão cientes de que a educação não é neutra, mas sim política”. Por essa razão, a Educação Ambiental nas UCs desempenha um papel fundamental na promoção do protagonismo coletivo e na participação das comunidades na gestão do território.
Iniciativas de Educação Ambiental do ICMBio
Vejamos alguns exemplos de ações desenvolvidas pelo ICMBio nas UCs:
Pesquisa e Conservação da Bonnetianeblinae
O projeto Urihi a Aherua Maçarandubinhatemitemi, coordenado pelo Núcleo de Gestão Integrada (NGI) Pico da Neblina, busca integrar ações de conservação de uma planta ameaçada de extinção com a participação ativa do povo Yanomami. A iniciativa promove reflexões conjuntas sobre os riscos à maçarandubinha (Bonnetianeblinae), levando em conta tanto as especificidades ecológicas da espécie quanto os saberes do sistema Yanomami. Essa fusão entre pesquisa científica e saberes tradicionais exemplifica uma Educação Ambiental que valoriza a troca de conhecimento e reconhece o território como um espaço de aprendizado e cuidado.
Juventude Extrativista do Lago do Cuniã
Outra ação relevante é o projeto voltado para a juventude na Reserva Extrativista Lago do Cuniã, desenvolvido pelo NGI ICMBio Cuniã-Jacundá. O foco é fortalecer modos de vida tradicionais e a conservação da biodiversidade, promovendo a participação dos jovens em encontros formativos e ações de Educação Ambiental. Isso contribui para sua inserção nas decisões comunitárias e para a permanência no território, além de fortalecer a governança socioambiental local.
Pesca Legal: Rumo à Sustentabilidade
O projeto Pesca Legal, realizado pelo NGI ICMBio São Luís, no Maranhão, está direcionado para a Educação Ambiental voltada à pesca nas reservas extrativistas. Envolvendo pescadores e comunidades locais, a iniciativa busca conscientizar sobre a legislação pesqueira, promovendo ajustes nas práticas de pesca e contribuindo para a organização social e a gestão territorial.
Retomada de Atividades e Projetos
Em 2024, com a revitalização da COEDU, as atividades do ICMBio ganharam novo impulso. Entre as iniciativas estão a retomada de cursos de formação em Gestão Socioambiental, o fomento a projetos de Educação Ambiental nas UCs e a criação de um programa nacional voltado para juventudes de povos e comunidades tradicionais. Este processo também inclui o apoio a iniciativas como a Escola das Marés e das Águas e o reconhecimento dos mestres de saberes, reforçando a articulação entre conservação, justiça social e participação popular.
