Transformando a Relação com seu Cão
Conviver com um cachorro vai muito além de carinho e passeios. A rotina com pets é repleta de responsabilidades e, infelizmente, desafios que surgem de forma sutil. Muitos tutores notam latidos excessivos ou dificuldades nas caminhadas sem perceber que esses comportamentos podem ser sinais de que algo precisa ser ajustado. Essa percepção, para muitos, vem com o tempo.
Michelle Dutra, de 35 anos, é um exemplo claro disso. Coordenadora de recursos logísticos e mãe de três cães — Marley, um labrador de 15 anos; Pandora, uma sem raça definida (SRD), de 6; e Koda, um rottweiler de 2 — ela sempre acreditou que oferecer amor e cuidados básicos era o suficiente para garantir uma convivência saudável.
Contudo, ao longo dos anos, Michelle começou a perceber comportamentos que a deixaram inquieta. O labrador Marley, por exemplo, demonstrava ansiedade ao ficar sozinho, chorando e latindo. Pandora reagia de forma intensa em situações de socialização com outros cães. Mesmo assim, esses comportamentos eram vistos mais como características individuais do que problemas a serem resolvidos.
Foi somente quando a família percebeu que esses comportamentos afetavam não apenas os animais, mas toda a dinâmica da casa e a relação com os vizinhos, que a necessidade de mudança se tornou evidente. A decisão de buscar ajuda profissional, portanto, se tornou urgente.
A Decisão de Buscar Ajuda
Em 2021, após um incidente sério envolvendo Pandora e outro cão, a situação se intensificou. “Antes, normalizávamos muitos comportamentos que achávamos inofensivos”, recorda Michelle. “Nunca cogitamos que poderiam ter consequências mais graves.” A partir desse ponto, a busca por um profissional capacitado tornou-se a prioridade da família.
O encontro com a empresa Cão Anjo, dirigida pelo adestrador Patrick Rodrigues, foi um divisor de águas. “Ele nos explicou que o adestramento não era apenas sobre ensinar comandos, mas sobre aprender a educar nossos pets, estabelecer limites e compreender a linguagem deles”, diz Michelle.
No início do adestramento, as principais dificuldades estavam relacionadas aos passeios e à socialização. Marley puxava a guia, quase assumindo o controle da situação, enquanto Pandora reagia mal a outros cães. “Pensávamos que amor era suficiente. Mas, descobrimos que amor sem limites gera insegurança”, relatou.
Aprendizados e Mudanças de Comportamento
Durante o processo, Michelle percebeu que o maior aprendizado estava na mudança de atitude dos tutores. “Não éramos apenas donos de pets; éramos, na verdade, pais de pets, mas sem o conhecimento necessário para educá-los. Aprendemos que regras, rotina e liderança não excluem o afeto, mas oferecem segurança para nossos cães”, explica.
De acordo com o médico veterinário comportamentalista Leomar Teixeira, os comportamentos problemáticos raramente surgem isoladamente. Fatores como falta de socialização, experiências traumáticas e até condições de saúde podem afetar a forma como os cães respondem ao ambiente. “O período mais crítico do desenvolvimento deles ocorre entre três e 14 semanas. Falhas nessa fase podem gerar medos, inseguranças e dificuldades comportamentais na vida adulta”, alerta.
Leomar também enfatiza que a humanização excessiva dos animais, onde os tutores evitam impor limites por pena, pode ser um risco. Além disso, comportamentos como bocejos repetidos, rigidez corporal e desvio de olhar são sinais claros de desconforto que não devem ser ignorados.
Os Benefícios do Adestramento
Com as novas práticas, as mudanças na casa de Michelle foram notáveis. A interação com outros cães tornou-se mais pacífica, os passeios ganharam segurança, e o comportamento dos animais melhorou significativamente. “Hoje, temos confiança. Eles entendem o que é um limite. O ‘não é não’ é claro para todos”, afirma.
A transformação foi tão impactante que isso influenciou a chegada de Koda, o mais novo membro da família. Apesar de ser de uma raça frequentemente rotulada como agressiva, Koda foi criado em um ambiente estruturado, com regras desde filhote. “Ele é sociável, equilibrado e obediente. Não precisamos repetir o processo de adestramento porque já aplicamos tudo o que aprendemos”, celebra Michelle.
Patrick, o adestrador, ressalta que a falta de regulamentação da profissão no Brasil contribui para a desinformação e a adoção de métodos inadequados. “Existem várias abordagens, e nenhuma delas é universal. O importante é entender o contexto do cão, da família e os objetivos. Amor é essencial, mas sem limites, ele gera confusão”, ensina.
Por fim, especialistas concordam que o adestramento deve ser visto como um investimento em saúde comportamental e prevenção. “Prevenir é sempre mais barato, seguro e ético do que tratar problemas depois”, finaliza Leomar.
Quando Buscar um Adestrador?
Se você notar comportamentos que indicam que seu cão está tendo dificuldades de adaptação ou comunicação, talvez seja hora de considerar o adestramento.
