O Dia Internacional de Conscientização Sobre o HPV
O Dia Internacional de Conscientização Sobre o HPV, celebrado em 4 de março, destaca a importância de discutir o vírus que está diretamente ligado a muitos casos de câncer do colo do útero. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), estima-se que entre 2026 e 2028, 19.310 brasileiras sejam diagnosticadas anualmente com essa doença, que se posiciona como a terceira malignidade mais frequente entre as mulheres no Brasil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
O câncer cervical, além de ser bastante prevalente, é um dos tipos de câncer mais letais. Dados indicam que, diariamente, 20 mulheres perdem a vida devido a essa condição, decorrente principalmente do papilomavírus humano (HPV) de alto risco, que pode afetar mulheres de qualquer faixa etária.
A Esperança na Prevenção
Apesar desse cenário alarmante, há motivos para esperança. O câncer do colo do útero é uma doença que pode ser prevenida através de várias medidas, como vacinação contra o HPV, exames de rastreamento e tratamento de lesões pré-cancerosas. Essa mensagem de esperança é promovida pela oncologista maranhense Rachel Cossetti, que desde 2016 lidera a campanha Março Lilás, focada na luta contra o câncer cervical.
O projeto nasceu da realidade observada por Cossetti ao dirigir o Hospital do Câncer Aldenora Bello, em São Luís. “Naquela época, uma em cada três mulheres atendidas com câncer apresentava tumores cervicais”, recorda. O diagnóstico muitas vezes chegava em estágios avançados, elevando significativamente a taxa de mortalidade.
Origem da Campanha Março Lilás
Com o objetivo de conscientizar a população sobre a importância de prevenir o HPV, Cossetti iniciou diversas ações educacionais em São Luís. Essas iniciativas rapidamente se espalharam pelo Brasil, ganhando apoio da farmacêutica MSD em 2024, o que permitiu uma ampliação significativa do alcance da campanha, com a participação de personalidades como Giovanna Ewbank, Fernanda Lima e Juliana Paes.
Legado Familiar e Formação Profissional
A luta de Cossetti é também um reflexo do legado familiar. Seu avô, o oncologista Antonio Jorge Dino, foi responsável pela fundação do Hospital do Câncer Aldenora Bello na década de 1950, que se tornou o primeiro centro oncológico do Maranhão. Em 1976, sua avó, Enide Jorge Dino, fundou a Fundação Antonio Dino, que atualmente administra diversos hospitais e uma casa de acolhimento para pacientes em tratamento de câncer.
Formada em medicina pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) em 2007 e com especialização em oncologia clínica pelo Hospital Sírio-Libanês, Cossetti se dedica ao atendimento de mulheres com câncer até hoje, além de atuar como professora na UFMA.
Os Desafios da Conscientização
Em seu discurso durante o evento de comemoração dos 10 anos da campanha Março Lilás, realizado em São Paulo, Cossetti compartilhou como a ideia de criar uma campanha de conscientização surgiu após seu retorno ao hospital e o impacto profundo que viu nas pacientes. “Encontramos muitas jovens com diagnóstico avançado de câncer do colo do útero, e isso gerava um sentimento de urgência por mudanças”, explica.
A realidade é que a doença geralmente afeta mulheres em situações socioeconômicas vulneráveis, que têm menor acesso a serviços de saúde e informações preventivas. Essa disparidade é observada em diversas regiões do Brasil, onde a incidência e a mortalidade pelo câncer cervical variam amplamente.
Desafios e Estratégias de Prevenção
Os programas de rastreamento de câncer do colo do útero no Brasil, embora disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS), enfrentam barreiras significativas. Muitas mulheres têm dificuldade em acessar os serviços devido a compromissos familiares e à falta de infraestrutura adequada nos postos de saúde. “Precisamos melhorar a coleta dos exames e garantir que as mulheres tenham acesso a resultados rápidos e orientação adequada”, menciona Cossetti.
A implementação da vacina como uma forma de prevenção primária é essencial, e deve ser uma prioridade nas escolas e unidades de saúde. Além disso, a autocoleta para detecção do HPV pode ser uma estratégia eficaz, mas depende de um investimento significativo na capacitação das equipes de saúde.
Os Caminhos para o Futuro
Para 2026, a campanha Março Lilás completará 10 anos e Cossetti espera que os avanços na vacinação e na conscientização continuem a crescer. “A vacinação é um pilar fundamental na estratégia da Organização Mundial da Saúde para a eliminação do câncer do colo do útero. Precisamos atingir 90% de cobertura vacinal para realmente avançar na erradicação desta doença”, afirma. Ela conclui que “a mobilização social e a educação são cruciais para transformar esta realidade e salvar vidas”.
