Estudo Revela Crescente Incidência de Câncer de Pulmão
Em um estudo realizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), foram analisadas 2.251 internações e 696 óbitos por câncer de pulmão em São Luís entre os anos de 2000 e 2024. Os dados revelam um aumento significativo na taxa da doença na capital maranhense, com ênfase na Vila Embratel, Centro e Turu como áreas mais afetadas.
O ano de 2023 se destacou como o mais alarmante, registrando 181 internações, uma cifra que representa cerca de 20 vezes mais do que os casos registrados em 2000. Além disso, foram contabilizados 70 óbitos durante esse período, sendo 54% dos pacientes homens e 46% mulheres. Esse desbalanceamento pode ser atribuído, entre vários fatores, ao hábito masculino de buscar atendimento médico mais tardiamente.
Bairros com Alta Taxa de Doenças e Mortalidade
Os pesquisadores identificaram que os bairros do Centro e do Turu apresentam um número considerável de moradores com doenças respiratórias, enquanto a Vila Embratel destaca-se pelo maior índice de óbitos. Essa concentração de adoecimento em áreas urbanas é influenciada pela alta densidade populacional e pelas condições de saúde pública.
A Vila Embratel, localizada a cerca de 6 km do Centro de São Luís, integra uma região que abriga diversas empresas e atividades industriais, sendo parte da zona de influência do Porto do Itaqui e do Distrito Industrial. A quantidade elevada de internações nesta área despertou a atenção da equipe de pesquisa.
“Observamos um número preocupante de internações e óbitos em Vila Embratel. Estamos buscando entender as razões por trás dessa alta incidência. Nosso próximo passo é trabalhar diretamente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) com os moradores dessas regiões”, explicou Layla Viana, estudante de Geografia da UFMA.
Depoimentos da Comunidade
Os moradores da comunidade Camboa dos Frades manifestam preocupações com os efeitos da poluição do ar, reportando um aumento nas doenças respiratórias, incluindo o câncer de pulmão. Maria do Carmo, pescadora local, compartilhou sua angústia: “Perdi várias amigas devido ao câncer de pulmão. Recentemente, uma amiga faleceu de forma rápida após o diagnóstico.”
Outra moradora, Lídia Costa, também relatou a dificuldade enfrentada com a poluição: “As plantas estão morrendo. É complicado viver aqui, pois quando reclamamos, apenas mandam alguém para fazer uma vistoria e nada muda.”
Relação Entre Poluição e Câncer de Pulmão
O pneumologista Pedro Springer ressalta que a exposição prolongada à poluição do ar é um dos principais fatores de risco para o câncer de pulmão. “Regiões com altos níveis de poluição são propensas a diversas doenças respiratórias, especialmente o câncer de pulmão”, afirmou o especialista.
Durante uma visita de reportagem, apenas uma das seis estações de monitoramento de qualidade do ar em São Luís, situadas na região da Itaqui-Bacanga, apresentou níveis considerados bons. O monitoramento é realizado pela Secretaria de Indústria e Comércio do Maranhão.
Escassez de Medidas para Combater a Poluição
O advogado especializado em Direito Ambiental, Guilherme Zagalo, criticou a inércia das autoridades em implementar medidas eficazes para reduzir a poluição nas áreas comprometidas. “Não há restrições para atividades industriais ou proibições de exercícios ao ar livre em condições adversas de qualidade do ar. Isso resulta em uma vida cotidiana que ignora a realidade de alta exposição a poluentes, o que poderá aumentar a mortalidade e reduzir a qualidade de vida da população”, destacou.
Impacto das Instituições de Saúde
No período entre 2000 e 2024, o Hospital do Câncer Aldenora Bello e o Hospital de Oncologia do Maranhão Dr. Tarquínio Lopes Filho foram os que mais registraram internações e óbitos relacionados ao câncer de pulmão.
Estudo como Instrumento de Políticas Públicas
A professora Márita Ribeiro, doutora em geografia humana da UFMA, acredita que os resultados desse levantamento podem ser fundamentais para guiar políticas públicas de saúde nas áreas afetadas. “Este estudo proporciona uma visão crítica sobre a incidência de câncer de pulmão em São Luís, permitindo que os órgãos de saúde avaliem as circunstâncias e desenvolvam intervenções adequadas”, afirmou.
Posicionamento das Autoridades
A Secretaria de Meio Ambiente do Maranhão (Sema) informou que monitora a qualidade do ar na região da Itaqui-Bacanga e realiza fiscalizações contínuas nas empresas licenciadas. Em nota, a secretaria indicou que não teve acesso ao estudo mencionado e, portanto, não pode comentar especificamente sobre suas metodologias e resultados. Também enfatizou a importância de avaliações epidemiológicas integradas para entender melhor a situação.
Por sua vez, o Centro das Indústrias do Estado do Maranhão (CIEM) afirmou que acompanha a discussão em torno da qualidade do ar na região e defende um desenvolvimento industrial responsável, com o comprometimento à legislação ambiental.
