Os Perigos do Caracol Africano e a Saúde Pública
Pesquisadores da Universidade Estadual do Maranhão (Uema) estão chamando a atenção para os riscos à saúde humana associados ao consumo do Caracol Africano (Achatina fulica), especialmente na região metropolitana da Grande Ilha de São Luís. Liderado pelo professor doutor Ferdinan Melo, o estudo envolve uma equipe de estudantes e professores da instituição, além de colaborações com outras entidades de pesquisa.
O Caracol Africano, original da África Oriental, foi introduzido no Brasil com a intenção de ser uma alternativa alimentar ao Cornum Aspersum, conhecido como escargot. No entanto, sua reprodução descontrolada transformou essa espécie em uma praga, exacerbando preocupações sobre a biodiversidade e a saúde pública.
Segundo Ferdinan, o Caracol Africano é um hospedeiro intermediário de nematódeos, como o Angiostrongylus cantonensis, que pode causar Meningite Eosinofílica. “Estamos investigando a presença do Caracol Africano e a associação com nematódeos em relação à saúde da população na Ilha de São Luís. Para isso, foram realizadas coletas em 12 locais nos municípios de Paço do Lumiar, Raposa, São José de Ribamar e São Luís, durante períodos chuvosos e secos nos anos de 2024 e 2025”, explicou o professor.
A Metodologia e os Resultados Preliminares do Estudo
As amostras coletadas foram analisadas no Laboratório Central do Maranhão (LACEN-MA) e enviadas ao Laboratório de Malacologia (LRNEM-IOC) da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Nesse processo, os moluscos passaram por digestão artificial com ácido clorídrico a 0,7%, sendo pesados e mensurados para determinar relações de massa e comprimento.
Em 2024, a equipe coletou 473 espécimes, sendo 348 nos períodos chuvosos e 125 nos secos. O crescimento da população do Caracol Africano nas últimas duas décadas tem levantado alertas sobre o potencial risco de zoonoses, doenças transmitidas entre animais e humanos. A pesquisa também identificou que a falta de informação e os cuidados inadequados com áreas urbanas favorecem a proliferação desses moluscos.
Desafios e Recomendações para a Saúde Pública
Os dados obtidos revelaram que tanto os caracóis adultos quanto os jovens possuem uma alta capacidade de adaptação a ambientes adversos, o que facilita sua reprodução. Além disso, a equipe de pesquisa apontou que as condições de saneamento básico precário em várias regiões da Ilha de São Luís contribuem para a manutenção e expansão dessa espécie invasora.
“Nosso objetivo é que os resultados deste estudo ofereçam subsídios para implementar medidas de controle eficazes, promovendo a saúde em um contexto de ‘Uma Só Saúde’, que considera a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental”, destacou Ferdinan.
O pesquisador ressalta que, embora os roedores sejam hospedeiros definitivos do nematódeo, os humanos podem ser infectados acidentalmente pela ingestão dos caracóis contaminados. Uma vez no organismo humano, as larvas se desenvolvem, atingindo o estágio subadulto e, após migrarem para o tecido cerebral, podem causar danos irreversíveis, resultando em comprometimento neurológico.
Colaboradores da Pesquisa
A equipe envolvida no estudo conta com a participação de importantes pesquisadores, como o professor Guilherme Mota da Silva do Laboratório de Malacologia da Fiocruz, e alunos de doutorado da Uema, incluindo Daniel Soares Saraiva, Nathália Medeiros Guimarães, Rivaldo Costa Almeida, além de bolsistas de extensão e iniciação científica. Essa colaboração reforça a importância do trabalho interinstitucional na pesquisa sobre saúde pública e biodiversidade.
