Fofões: Símbolos do Carnaval Maranhense
Sob o calor intenso que envolve o centro histórico de São Luís, no Maranhão, foliões se misturam às fachadas antigas e calçadas desgastadas, dando vida a uma festa repleta de cores vibrantes. Em meio a passos ritmados e gritos estridentes de ‘coisa feia’, a presença dos fofões se destaca. Neste Carnaval, a feiura se transforma em linguagem, tradição e performance, como explica Uimar Júnior, de 67 anos, apaixonado pelo personagem desde a infância. Ele expressa preocupação com a gradual extinção dessa figura emblemática nas ruas do Carnaval de rua.
Júnior, que é um dos idealizadores do Blocão do Fofão, um grupo que promove a preservação desta tradição, diz que quanto mais grotesca for a máscara, mais autenticamente ela representa o fofão. A galeria Trapiche, que ele dirige, abriga um acervo de 40 fofões originais do Maranhão, ressaltando a importância cultural deste personagem.
História e Origem dos Fofões
Os primeiros registros dos fofões remontam ao final do século XIX e início do século XX, mas sua origem ainda é motivo de debate. Algumas teorias apontam para uma influência africana, enquanto outras fazem ligação com os bailes de máscara europeus trazidos pelos colonizadores. Além disso, há conexões com os bufões medievais, artistas que divertiam a realeza e tinham liberdade para expor verdades que outros não podiam.
O nariz do fofão, por exemplo, é notável: sua forma adunco e aquilina, que termina em uma ponta voltada para baixo, provoca estranhamento e faz referência ao bico de uma ave de rapina, como uma águia. Essa característica é um dos muitos elementos que tornam o fofão uma figura tão intrigante e única.
Sincretismo Cultural no Maranhão
O Maranhão é um verdadeiro caldeirão cultural e étnico, onde influências indígenas, marcas da colonização e uma forte presença africana se fundem. Júnior enfatiza que essa mistura gerou uma identidade singular, fazendo do fofão um ícone cultural exclusivo dessa região. “Infelizmente, esse personagem está caindo no esquecimento”, lamenta.
Apesar da crescente presença do fofão em blocos carnavalescos e nas redes sociais, onde crianças e adolescentes se fantasiam dessa figura, há um clamor crescente entre os foliões mais tradicionais pela preservação dessa expressão popular. O fofão é uma interseção do lúdico, do carnavalesco e do grotesco, e é visto como vital para a cultura local.
Preservação da Tradição
Para reverter o cenário de esquecimento, a galeria Trapiche implementou cursos de confecção de máscaras de fofão. Dayana Roberta, mascareira e professora de teatro da UFMA, explica que a confecção de uma máscara pode levar cerca de uma semana, utilizando a técnica de papietagem, que envolve a sobreposição de tiras de papel umedecidas em cola. Após a estrutura ganhar volume e rigidez, a peruca é adicionada, dando vida ao personagem.
Dayana destaca que o fofão é uma caricatura alegre, e não um símbolo de terror. “A brincadeira de assustar é uma das alegrias do nosso Carnaval”, afirma, ressaltando a importância dessa figura na celebração maranhense.
A Interação do Fofão com o Público
Os integrantes do Blocão do Fofão se vestem com macacões coloridos e guizos, que anunciam sua presença antes mesmo de serem vistos. Com uma bonequinha de plástico em uma mão e uma varinha na outra, os foliões interagem com o público, impregnando a festa com sua energia. “O fofão ganha vida ao se encontrar com o povo, circulando pelos becos e periferias”, conclui Júnior.
Historicamente, o fofão se ergue como símbolo de resistência, relembrando que o Carnaval é, acima de tudo, uma festa popular. Durante o circuito Vem pro Mar, na avenida Litorânea, cerca de 4,5 milhões de foliões celebraram ao longo de cinco dias, com artistas renomados como Anitta e Wesley Safadão se apresentando em trios elétricos. O Carnaval maranhense se revela plural, com a tradição dos fofões coexistindo em harmonia com o espetáculo moderno das festividades.
