Desafios e Oportunidades para Agentes Culturais
Uma pesquisa recente realizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em colaboração com o Observatório da Economia Criativa da Bahia, trouxe à tona importantes dados sobre a realidade dos agentes culturais no Brasil. O estudo, que ainda está em suas fases iniciais, analisou seis bens culturais, tanto materiais quanto imateriais, e revelou desigualdades significativas na economia do patrimônio cultural.
Os números são preocupantes: embora 46% dos agentes culturais entrevistados dediquem mais de 40 horas por semana ao seu trabalho, apenas 27% conseguem se sustentar exclusivamente dessa atividade. Essa disparidade levanta questões sobre a viabilidade econômica do setor. A maioria dos entrevistados acredita que se dedicar exclusivamente à preservação cultural seria extremamente benéfico para a continuidade das práticas culturais.
Clara Marques, coordenadora-geral de Fomento e Economia do Patrimônio do Iphan, enfatizou a importância do setor criativo, que representa cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Ela comentou sobre as intenções por trás da pesquisa: “Nosso maior objetivo com esse estudo é subsidiar políticas públicas. Ao identificarmos que 64% dos participantes enxergam a sustentabilidade econômica como a maior ameaça à continuidade do patrimônio cultural, podemos direcionar esforços de governo mais eficazes para apoiar esses agentes”.
Entre as sugestões dos entrevistados, destacam-se a necessidade de políticas que promovam a geração de renda, o lançamento de editais específicos e a implementação de aposentadorias para os profissionais do setor cultural. Essas medidas poderiam transformar a forma como o patrimônio cultural brasileiro é preservado e promovido.
Desigualdade no Acesso a Políticas Públicas
Outro dado alarmante da pesquisa é que 60% dos entrevistados nunca conseguiram acessar benefícios fiscais, revelando uma significativa desigualdade no acesso às políticas públicas de apoio ao setor. Para muitos agentes culturais, a motivação para continuar seus trabalhos é o reconhecimento dentro da comunidade e a possibilidade de gerar renda.
É notável que 70% dos entrevistados estejam ligados ao seu bem cultural há mais de uma década, e cerca de 80% se consideram líderes em suas respectivas comunidades. No que diz respeito às atividades que mais geram renda, os agentes citam o cachê de apresentações culturais e a oferta de aulas e oficinas como suas principais fontes de receita.
Entretanto, os custos relacionados ao trabalho cultural são significativos. Materiais, equipamentos e a manutenção da infraestrutura são despesas essenciais, enquanto obstáculos como a falta de capital de giro e entraves burocráticos dificultam ainda mais a sustentabilidade econômica do setor. Além disso, muitos profissionais enfrentam a desvalorização do seu trabalho, o que se traduz em desafios adicionais na busca por reconhecimento e valorização.
A pesquisa do Iphan, por enquanto, abrange apenas seis bens culturais: o Centro Histórico de Salvador e o Samba de Roda, na Bahia; o Centro Histórico de São Luís e o Complexo Cultural do Bumba-meu-Boi, no Maranhão; o Círio de Nazaré, no Pará; e a Praça São Francisco, em São Cristóvão, Sergipe. À medida que mais dados forem coletados, espera-se que novas luzes sejam lançadas sobre a realidade do patrimônio cultural brasileiro, possibilitando debates e ações mais efetivas em prol da sustentabilidade dos agentes culturais.
