Estudo Inédito sobre Patrimônio Cultural
Em um esforço para entender as dinâmicas econômicas que envolvem o patrimônio cultural brasileiro, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Observatório da Economia Criativa da Bahia (Obec Bahia) realizaram uma pesquisa inovadora, cujos resultados preliminares foram divulgados em dezembro de 2025. O estudo, intitulado ‘Pesquisa Patrimônio Cultural, Economia e Sustentabilidade’, abrangeu seis cidades brasileiras e analisou bens culturais materiais e imateriais, incluindo o Centro Histórico de Salvador, o Círio de Nazaré e o Bumba-meu-Boi.
Durante a pesquisa, conduzida entre abril e outubro de 2025, foram realizadas 182 entrevistas que começaram a revelar um panorama econômico detalhado sobre 12 bens culturais reconhecidos como Patrimônio Mundial pela Unesco. Os dados demonstram uma realidade já conhecida por muitos, mas agora evidenciada de forma sistemática.
Desafios e Realidades do Setor Cultural
Os números expõem um contraste alarmante: enquanto 46% dos agentes culturais dedicam mais de 40 horas semanais ao patrimônio, apenas 27% conseguem sobreviver exclusivamente dessa atividade. Notavelmente, 84% dos que não obtêm toda a sua renda dessa área expressaram o desejo de trabalhar integralmente com o patrimônio. Quase todos os entrevistados (96%) acreditam que a dedicação exclusiva ao patrimônio cultural seria extremamente benéfica para a sua preservação.
Apesar de 57% dos entrevistados afirmarem ter lucro, 41% já enfrentaram prejuízos significativos em algum momento. A sustentabilidade econômica é percebida como a maior ameaça à continuidade dos bens culturais, com 64% dos entrevistados sinalizando a necessidade urgente de recursos para a manutenção dessas expressões culturais. Propostas para o fortalecimento econômico incluem benefícios sociais (45%) e novos editais promovidos pelo Iphan (32%).
A Importância da Preservação Cultural
Durante o encontro em Belém, a professora Idanise Hamoy, da Universidade Federal do Pará, enfatizou a interconexão entre preservação do patrimônio e a economia da cultura. “Se as pessoas não enxergarem benefícios associados ao patrimônio, não haverá preservação”, alertou. Suspeitas similares foram levantadas no Maranhão, onde o assessor Rafael Arrelaro destacou que o Bumba-meu-Boi é crucial para a economia local, sendo um exemplo claro de como a cultura pode sustentar diversos setores, desde turismo até comércio informal.
Os Eixos da Pesquisa e Seus Resultados
A pesquisa estruturou sua análise em quatro eixos principais: 1) Perfil dos agentes culturais; 2) Trabalho e renda com o bem cultural; 3) Organização produtiva; e 4) Fomento e parcerias institucionais. Essa abordagem permitiu, pela primeira vez, compreender de forma abrangente a economia do patrimônio cultural no Brasil.
No Eixo 1, por exemplo, 72% dos entrevistados relataram ter mais de 10 anos de envolvimento com o patrimônio, enquanto 18% estavam envolvidos há mais de 41 anos. A diversidade racial também se destacou, com a maioria dos participantes se autodeclarando pretos (40%) ou pardos (32%). Além disso, a pesquisa revelou que muitos agentes se percebem como lideranças em suas comunidades.
Desafios Financeiros e Mercado de Trabalho na Cultura
O Eixo 2 ilustra a disparidade entre dedicação e retorno financeiro. Somente 27% dos entrevistados dependem exclusivamente do patrimônio cultural para viver, e 50% relatam que essa fonte representa menos da metade de sua renda anual. É preocupante notar que 87,2% dos que não têm a cultura como única fonte de renda precisam assumir outras ocupações, resultando em jornadas de trabalho duplas ou triplas. A informalidade também é uma realidade, com 35% dos agentes atuando de forma contínua sem proteção social.
O Ciclo Econômico da Cultura Brasileira
O Eixo 3 examina como o valor cultural se traduz em produtos e serviços. As atividades que mais geram receita incluem apresentações culturais e aulas de arte, mas os custos são elevados, com 74% dos entrevistados citando a compra de materiais como um grande desafio. As dificuldades financeiras são amplificadas pela falta de capital de giro e pela burocracia do sistema de editais.
O Papel do Apoio Institucional
Finalmente, o Eixo 4 destaca o apoio institucional. Embora 80% dos entrevistados dependam da comercialização de seus produtos, apenas 65% recebem financiamento governamental. Além disso, 63% nunca tiveram acesso a benefícios fiscais, e muitos consideram a burocracia como um dos maiores obstáculos para obter apoio.
Esta pesquisa não só lança luz sobre as desigualdades presentes no setor cultural, mas também aponta caminhos para a criação de políticas públicas que fortaleçam a sustentabilidade econômica do patrimônio cultural no Brasil. Com a previsão de divulgação do relatório completo em fevereiro, a comunidade cultural aguarda ansiosamente por soluções que promovam a preservação e valorização de sua rica herança.
