A Relação Entre Fé e Literatura
O recente lançamento de “O louco de Deus no fim do mundo” trouxe à tona a complexa relação entre o escritor ateu Javier Cercas e o Papa Francisco. Vencedor do Prêmio do Livro Europeu, o romance mergulha nas tensões entre fé e razão, refletindo as experiências de Cercas e sua visão sobre a religião, especialmente em um contexto marcado por sua própria trajetória como autor e cidadão. Cercas, que abandonou a fé na adolescência, durante conversas com líderes do Vaticano, aborda a figura do Papa argentino como um ser cheio de contradições, que representa um paradoxo entre a espiritualidade e a realidade do mundo contemporâneo.
No livro, Cercas explora a tentativa do Papa de aproximar a Igreja de seus fiéis, especialmente aqueles que vivem em situações de vulnerabilidade. Ele descreve Francisco como um homem que, apesar de sua posição de autoridade, busca uma conexão genuína com as pessoas, refletindo sobre a necessidade de resgatar a espiritualidade em tempos de crise. “Cercas apresenta Jorge Mario Bergoglio como alguém atento às questões sociais, mas também profundamente espiritual, carregando paradoxos em sua liderança”, comenta um crítico literário.
A Trilogia Policial e a Busca por Justiça
Outra obra que chegou recentemente ao Brasil é “Independência”, segundo volume da trilogia “Terra Alta”, que traz o personagem Melchor Marín, um policial fictício. Nesta nova entrega, Marín é chamado a ajudar a prefeita de Barcelona após ser ameaçada por chantagistas. A narrativa expõe os vícios do poder e reflete a preocupação de Cercas com as consequências da corrupção, especialmente à luz da crise que envolveu a declaração unilateral de independência da Catalunha em 2017. Em suas palavras, “o conhecimento da corrupção e da injustiça se tornou combustível para minha escrita”, diz o autor.
Durante uma conversa por vídeo com o GLOBO, Cercas compartilhou suas reflexões sobre o papel da literatura em sua vida. Ele revelou que, embora tenha abandonado a fé, a literatura e a busca por respostas se tornaram essenciais para sua existência. “A literatura pode proporcionar uma forma de transcendência, permitindo que a busca por sentido em meio ao caos seja um ato de resistência”, afirmou.
O Impacto da Fé em Sua Escrita
Em uma de suas declarações mais provocativas, Cercas reconheceu que a música clássica, como as composições de Bach, o fazem sentir uma profunda necessidade de crer em algo maior. “A fé é um presente, não uma escolha”, assegura. Ele destaca a importância da intuição poética na crença, algo que vai além da razão e que se aproxima do que ele busca nas páginas de seus romances.
Embora tenha enfrentado críticas e perda de amigos por suas posições políticas, Cercas sustenta que o trabalho de um escritor é correr riscos. Ele acredita que a literatura permite explorar aspectos da vida que muitas vezes são reprimidos na realidade. “Escrever é confrontar a dor e transformá-la em algo belo”, reflete.
Crítica ao Nacionalismo e a Busca por uma Nova Identidade
Com a trilogia policial, Cercas move seu foco do passado para o presente, investigando a questão do nacionalismo e suas implicações. Ele questiona se esse fenômeno não é, de fato, o último refúgio de canalhas, conforme já disse o escritor inglês Samuel Johnson. “O nacionalismo, como o conhecemos, perverteu o conceito de pátria; é preciso lembrar que a verdadeira pátria é onde estão nossos laços afetivos e nossas raízes”, argumenta. A trilogia surge, portanto, como uma busca por uma nova forma de pertencimento em um mundo fragmentado.
Todas essas reflexões revelam um autor que, embora atravessado por crises pessoais e sociais, ainda busca entender sua própria relação com a fé e a literatura. Javier Cercas continua a ser uma voz poderosa na literatura contemporânea, desafiando seus leitores a olhar mais fundo nas questões que permeiam a condição humana.
