A Arte e os Pigmentos Naturais de Marlene Almeida
Com uma carreira que se estende por mais de 50 anos, Marlene Almeida, artista paraibana de 82 anos, transforma sua pesquisa sobre pigmentos naturais em uma rica produção artística. As milhares de amostras de terra coletadas ao longo de sua trajetória, em diversas regiões do Brasil e no exterior, são tão relevantes para sua obra quanto as pinturas e esculturas que cria a partir dessas cores. Na 36ª Bienal de São Paulo, com o tema “Nem todo viandante anda estradas — Da humanidade como prática”, que ocorre até 11 de janeiro de 2026 no Pavilhão do Parque Ibirapuera, a instalação “Terra viva” (2025) apresenta uma visão abrangente da obra de Marlene, dividida em dois espaços complementares. Um deles exibe suas pinturas em têmpera fosca sobre faixas de algodão cru, enquanto o outro recria seu ateliê localizado em João Pessoa, repleto de vidros com solos brasileiros, equipamentos laboratoriais e cadernos de campo.
Após exposições em maio na Bélgica e no Reino Unido, Marlene inaugurou, no final de novembro, sua primeira individual no Rio de Janeiro, intitulada “Veios da terra”. A mostra, que ficará em cartaz até 17 de janeiro na galeria Flexa, no Leblon, reúne não apenas suas pinturas, mas também amostras de terra coletadas durante suas expedições.
Uma Vida Dedicada à Arte e à Natureza
Nascida em Bananeiras, na região do Brejo Paraibano, a cerca de 130 km da capital, Marlene é graduada em filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Sua jornada com os pigmentos naturais começou na década de 1970, com a coleta do primeiro solo na Praia do Cabo Branco, em João Pessoa, um local que frequentou desde a juventude. Desde então, suas expedições, que ela considera fundamentais para sua prática artística, se tornaram parte essencial de seu trabalho.
“No início, eu pintava com tinta a óleo, como qualquer artista da época. Um dia, decidi levar uma amostra da Praia do Cabo Branco, onde há uma formação geológica chamada Barreiras, que se estende pela costa do Brasil”, conta Marlene. “Depois de peneirada, a terra é lavada várias vezes até se transformar em pigmento, que é misturado com aglutinantes naturais, como resinas vegetais. Cada pigmento exige um processo diferente, e, muitas vezes, quando o preparo está pronto, percebo que essa é a minha obra”, reflete.
Expedições e o Apoio da Família
Para identificar os pigmentos que deseja, Marlene estuda mapas geológicos em busca dos sedimentos que pretende coletar em várias partes do Brasil. Inicialmente, ela contava com o auxílio do marido, o engenheiro civil Antonio Almeida, e posteriormente de seu filho, José Rufino, que é artista, geólogo e paleontólogo. “Costumo dizer que não tenho família, tenho equipe”, diverte-se a artista. “Nós não fazemos turismo, fazemos expedições. Brincamos que o José aprendeu a ler no manual de mineralogia. Hoje, ele me apoia com a parte geológica durante nossas jornadas. Também recebo muitas amostras de amigos que viajam, como presentes de aniversário ou Natal, um gesto que demonstra que pensaram em mim”, explica.
A Importância de Marlene Almeida na Arte Contemporânea
Keyna Eleison, cocuradora da 36ª Bienal de São Paulo, destaca a relevância da obra de Marlene em uma coletiva que valoriza a prática artística. “Ela é uma artista essencial, que redefine o que entendemos por pesquisa pictórica. Marlene nos mostra que a cor não existe isoladamente; é um encontro com o lugar, o tempo e o espaço onde a artista a busca”, observa Keyna, ressaltando também a quebra de paradigmas sobre a presença feminina em posições de liderança na arte.
A curadora Luisa Duarte, sócia da Flexa e coautora da exposição “Veios da terra”, enfatiza que a obra de Marlene dialoga com questões contemporâneas, especialmente aquelas relacionadas à crise climática. “Marlene aborda temas da natureza e da ecologia de maneira coerente e íntegra, e sua produção artística ressoa com as preocupações atuais sobre o meio ambiente”, avalia Luisa, acrescentando que sua abordagem é profundamente poética e não se limita a uma mensagem literal ou panfletária.
A Busca pela Cor Verde
No seu olhar poético sobre o solo brasileiro, que a levou a nomear seu ateliê de Museu das Terras Brasileiras, Marlene revela que a cor verde é uma das mais difíceis de se obter. “Pesquisei até encontrar um verde maravilhoso em Minas Gerais”, conta. “No início, minhas pinturas eram mais figurativas e representavam paisagens para conscientizar as pessoas. Mas percebi que conseguiria transmitir essa mensagem apenas ao observar a terra e perceber que o solo sob nossos pés possui cor, aroma e plasticidade. A terra não é apenas um recurso; ela também está viva”, finaliza.
