Desigualdade Econômica no Nordeste
O Produto Interno Bruto (PIB) dos municípios brasileiros de 2023, divulgado recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), expõe as profundas desigualdades que permeiam o Nordeste. Conforme os dados do PIB dos Municípios 2022-2023, há uma grande discrepância entre centros urbanos vibrantes e municípios que enfrentam baixíssima renda per capita. O levantamento apresenta informações tanto do PIB a preços de mercado quanto do PIB per capita para os 5.570 municípios do país.
No topo do ranking econômico da região, Fortaleza (CE) se destaca, registrando o maior PIB do Nordeste, com impressionantes R$ 86,9 bilhões, que representa 5,75% de todo o PIB regional. A capital cearense superou importantes cidades como Salvador (BA) e Recife (PE), firmando-se como o principal polo econômico da área. Em contrapartida, Manari (PE) aparece como o município com o menor PIB per capita do Brasil, meramente R$ 7.201,70 por habitante.
A comparação entre Fortaleza e Manari ilustra claramente a desigualdade econômica interna no Nordeste. Enquanto os grandes centros urbanos e polos industriais concentram a maior parte da produção e riqueza da região, municípios menores, especialmente aqueles no interior do semiárido, lutam contra a falta de diversificação econômica, carência de investimentos e uma dependência acentuada de repasses públicos.
Centros Econômicos em Ascensão
Além de Fortaleza, outros municípios nordestinos apresentam PIBs relevantes. Salvador (BA), Recife (PE), São Luís (MA) e Maceió (AL) também compõem a lista dos principais destaques econômicos da região. A Bahia, em particular, se sobressai, com várias cidades figurando entre as 30 maiores economias do Nordeste, como Camaçari, São Francisco do Conde e Luís Eduardo Magalhães, impulsionadas principalmente pelo setor de refino de petróleo, petroquímica e agricultura voltada para a exportação.
No âmbito nacional, os dez municípios que lideram em termos de PIB absoluto concentram cerca de 24,5% da economia do Brasil. São Paulo (SP) se destaca claramente, com R$ 1,06 trilhão, o que corresponde a 9,7% do PIB nacional. Logo atrás estão Rio de Janeiro (RJ) e Brasília (DF), com R$ 418,4 bilhões e R$ 365,6 bilhões, respectivamente.
Densidade Econômica e Desafios Estruturais
Quando analisamos a densidade econômica, que considera o PIB por quilômetro quadrado, Osasco (SP) lidera com R$ 1,8 milhão/km², seguido de perto por São Caetano do Sul (SP) e Barueri (SP). As maiores densidades estão, sem exceção, concentradas nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Por outro lado, entre os municípios com os menores PIBs nominais, Santo Antônio dos Milagres (PI) se destaca com o menor valor, somando apenas R$ 25,2 milhões, refletindo a baixa atividade econômica que, aliada a uma população reduzida, evidencia a fragilidade dessas localidades.
Concentrações Urbanas e o PIB Nacional
Conforme dados do IBGE, as dez maiores concentrações urbanas do Brasil respondem por 40,7% do PIB nacional, totalizando R$ 4,45 trilhões. A área metropolitana de São Paulo, por exemplo, sozinha é responsável por 16,2% do total, seguida pelas concentrações do Rio de Janeiro (8,0%) e Brasília (3,5%). No Nordeste, Salvador e Recife são as únicas cidades que figuram entre as dez maiores concentrações urbanas do país, com participações de 1,5% e 1,4%, respectivamente. Curiosamente, elas não aparecem entre as dez cidades com maior densidade econômica, que são dominadas por regiões metropolitanas mais compactas localizadas no Sudeste e Sul do Brasil.
Os Menores PIBs Per Capita do Brasil
No extremo oposto, Manari (PE) apresenta o menor PIB per capita do país, com apenas R$ 7.201,70. Quatro dos cinco menores PIBs per capita estão localizados no Maranhão, incluindo Nina Rodrigues (R$ 7.701,32), Matões do Norte (R$ 7.722,89), Cajapió (R$ 8.079,74) e São João Batista (R$ 8.246,12). Esses municípios enfrentam uma economia pouco diversificada e dependem fortemente de transferências públicas, o que contribui para sua vulnerabilidade econômica.
Apesar das dificuldades, o Nordeste abriga também municípios com altos índices de renda por habitante. São Francisco do Conde (BA), por exemplo, alcançou o segundo maior PIB per capita do Brasil em 2023, com R$ 684,3 mil, em grande parte devido à sua atuação no setor de refino de petróleo. Outros municípios nordestinos que se destacam entre os 100 maiores PIBs per capita incluem Santo Antônio dos Lopes (MA), Tasso Fragoso (MA), Formosa do Rio Preto (BA), Baixa Grande do Ribeiro (PI), Ipojuca (PE), Goiana (PE), Guamaré (RN), Uruçuí (PI), Jaborandi (BA) e Sebastião Leal (PI), todos com forte presença do setor industrial e do agronegócio.
Atividades Petrolíferas e o PIB Per Capita
As seis cidades que possuem os maiores PIBs per capita do Brasil em 2023 estão ligadas à cadeia do petróleo, com ênfase em municípios dedicados à extração e refino desse recurso. O caso de São Francisco do Conde (BA), que obteve o segundo maior PIB per capita do país, é um exemplo claro dessa relação. Também estão entre os primeiros colocados localidades como Santo Antônio dos Lopes (MA), Guamaré (RN) e Ipojuca (PE), todas com operações relevantes na área de petróleo e gás natural.
Como bem ressaltou Luiz Antonio do Nascimento de Sá, analista do IBGE, “é curioso observar que os municípios no topo dessa lista estão atrelados ao petróleo mesmo em um contexto menos favorável a essa commodity. Alguns campos de petróleo iniciaram suas operações recentemente, e apesar da atividade extrativa ter perdido participação no cenário nacional, esses campos começaram a beneficiar certas cidades ao longo de 2023.” Desde 2002, as capitais São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília continuam a figurar entre os maiores PIBs do país, mas sua participação relativa tem diminuído ao longo do tempo, resultado do crescimento de outras regiões e do dinamismo de setores produtivos em expansão.
