Transformações na Educação: A Nova Realidade Sem Telas
No Dia Internacional da Educação, comemorado em 24 de janeiro, o debate sobre as diretrizes do ensino no Brasil adquire novos contornos. Há exatamente um ano, foi implementada a norma que proíbe o uso de celulares nas escolas (Lei nº 15.100/2025), incluindo períodos de recreio, com a intenção de minimizar distrações, aprimorar a concentração dos alunos e fortalecer as relações interpessoais no ambiente escolar. Após 12 meses, os efeitos dessa medida começam a se tornar evidentes, tanto dentro quanto fora da sala de aula.
A ausência de dispositivos móveis alterou significativamente a dinâmica pedagógica nas instituições de ensino. Educadores têm relatado um aumento na atenção dos alunos durante as aulas, participação mais ativa nas atividades e melhorias na interação entre os estudantes. Com a eliminação do celular como um fator de distração constante, práticas como leitura, debates em grupo e atividades escritas voltaram a ser essenciais no processo de aprendizado.
Impactos no Comportamento e na Sociabilidade dos Alunos
Além do desempenho acadêmico, mudanças notáveis foram observadas no comportamento dos estudantes. Em várias escolas, o recreio passou a ser marcado por brincadeiras coletivas, conversas cara a cara e atividades esportivas. A diminuição do uso excessivo de telas também contribuiu para a redução de conflitos virtuais que costumavam se manifestar fisicamente, como casos de cyberbullying.
Entretanto, o período de adaptação não foi simples. No início, gestores e educadores enfrentaram resistência tanto de alunos quanto de famílias, além do desafio de garantir o cumprimento da normativa. Com o tempo, a construção de acordos pedagógicos, o diálogo com a comunidade escolar e ações de conscientização mostraram-se cruciais para a consolidação da mudança.
A Importância das Atividades Lúdicas na Nova Era Educacional
Segundo a pedagoga Barbara Buck, organizadora do livro “Brincadeira é coisa séria” (Cortez Editora), as transformações observadas estão intimamente ligadas às ações que as escolas tomaram para oferecer alternativas.
“Espaços com mesas de pingue-pongue e jogos certamente perceberam um retorno significativo dos alunos a essas atividades, e as rodas de conversas se reestabeleceram. No entanto, em escolas com infraestrutura deficiente, houve um aumento considerável de comportamentos agressivos e violência física entre alguns estudantes logo no início da implementação da norma”, ressalta.
Barbara enfatiza que o impacto da lei varia conforme a abordagem que cada instituição de ensino adota. “No livro, buscamos ressaltar a importância de promover atividades lúdicas que ofereçam convivência, entretenimento e aprendizado, além do resgate da memória indígena, quilombola e caiçara. Não é suficiente retirar o celular, é necessário proporcionar alternativas e despertar o gosto pela brincadeira”, completa.
A Tecnologia Como Aliada da Educação
Para muitos educadores, a proibição não significa o abandono da tecnologia, mas sim uma reorganização de seu uso. Ferramentas digitais permanecem integradas ao planejamento pedagógico, mas agora de forma controlada e com objetivos específicos, utilizando laboratórios de informática, tablets institucionais e recursos selecionados para evitar o uso indiscriminado de celulares pessoais.
Um ano depois, a experiência reforça uma reflexão central no Dia Internacional da Educação: a tecnologia deve ser uma aliada no aprendizado, e não um obstáculo. Ao restringir o uso de celulares nas salas de aula, as escolas reafirmam seu papel como espaços de convivência, escuta, concentração e construção do conhecimento — valores que se fazem essenciais em um mundo cada vez mais conectado, mas nem sempre focado.
“O celular distrai qualquer um. Você acessa para ver uma coisa e acaba navegando por outros sites e páginas. Portanto, essa lei é crucial para que possamos utilizar essas ferramentas tecnológicas de forma objetiva e apropriada dentro do contexto escolar”, aponta a educadora Regina Pinto.
Pesquisa do MEC Sobre os Efeitos da Proibição
Além disso, ainda neste semestre, o Ministério da Educação (MEC) realizará uma pesquisa em nível nacional para analisar os desdobramentos da Lei nº 15.100/2025. O objetivo é compreender como a norma tem sido implementada nos diferentes sistemas de ensino e quais os efeitos iniciais que ela tem gerado no cotidiano escolar.
“Sabemos que uma das decisões mais significativas que tomamos em 2025 foi a restrição do uso de celulares nas escolas. O brasileiro passa, em média, mais de nove horas por dia em frente a uma tela. Isso representa um grande risco para crianças e adolescentes, podendo gerar ansiedade, déficit de atenção e diversos transtornos mentais. A intenção é que o ambiente escolar seja um espaço dedicado à aprendizagem”, destaca o ministro da Educação, Camilo Santana.
A Lei nº 15.100/2025 foi estabelecida em um contexto de crescente preocupação sobre os efeitos do uso excessivo de celulares no ambiente escolar. Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2022 revelam que 80% dos alunos brasileiros dizem se distrair e ter dificuldades de concentração nas aulas de matemática por causa do celular, sublinhando a urgência de uma resposta regulatória no campo da educação.
