Queda na Oferta de Leitos: Um Desafio para o SUS
No início deste ano, uma paciente vivenciou um momento angustiante ao ser submetida a uma cesariana de emergência após um exame que indicou sofrimento fetal. O bebê, que nasceu em condições críticas, foi reanimado e ficou internado na UTI neonatal por mais de uma semana. A pedagoga Ana Maria, que presenciou a superlotação no corredor do hospital, atualmente processa o poder público em busca de justiça. Sua experiência reflete um problema mais amplo: a redução drástica no número de leitos em especialidades do Sistema Único de Saúde (SUS) durante a gestão atual. Desde 2023, foram fechados cerca de 679 leitos obstétricos, além de 1.885 em unidades psiquiátricas e 302 pediátricos, conforme os dados do Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde (CNES) do Ministério da Saúde.
Um levantamento realizado pelo Farol da Oposição, vinculado ao Instituto Teotônio Vilela, ligado ao PSDB, revela que a diminuição na disponibilidade desses leitos ocorre mesmo com o crescimento no número total de leitos do SUS, que aumentou em 7.050 entre janeiro de 2023 e dezembro de 2025. Essa discrepância levanta questionamentos sobre as políticas de saúde pública em vigor.
Ministério da Saúde e a Contradição dos Dados
Em resposta a essas preocupações, o Ministério da Saúde defende que a atual gestão proporcionou o maior “aumento sustentado” no número de leitos em 15 anos. A comunicação oficial destaca que, após um longo período de queda, houve um crescimento significativo desde 2023, superando até mesmo os níveis observados durante a fase mais crítica da pandemia de Covid-19. A nota ressalta que a análise da oferta de leitos deve considerar fatores como a redução no tempo médio de internação, a diminuição da taxa de natalidade e a implementação da Reforma Psiquiátrica, que visam fechar leitos em hospitais psiquiátricos e expandir a rede de atenção à saúde mental.
Histórico de Retração de Leitos no SUS
Os responsáveis pelo estudo, André Lacerda, especialista em políticas públicas, e Caio Ortiga, cientista político, destacam que a série histórica indica uma retração na oferta de leitos do SUS desde 2005. Em duas décadas, o Brasil viu o fechamento de 38.137 leitos, caindo de 354.666 para 316.529 em 2025. Vale ressaltar que, neste mesmo período, a população brasileira não apenas cresceu, mas também envelheceu rapidamente, o que intensifica a demanda por serviços de saúde.
Um dos fatores principais para essa diminuição é a alteração no modelo de financiamento do SUS. Lacerda explica que a participação da União nos gastos totais com saúde caiu de 52% para 40% desde o início dos anos 2000. Essa redução afeta diretamente a capacidade dos municípios de atender à demanda por tratamentos de saúde, resultando em um acesso reduzido por parte da população.
Inovações e Evolução no Modelo de Assistência
Além dos problemas estruturais, mudanças no modelo assistencial e avanços tecnológicos têm influenciado a demanda por internações. De acordo com Walter Cintra, professor da FGV EAESP e especialista em administração hospitalar, tratamentos que antes exigiam internação prolongada agora podem ser realizados em casa ou em regime ambulatorial. Isso significa que muitos pacientes que antes ficariam internados por dias ou semanas agora recebem cuidados adequados sem precisar ocupar leitos hospitalares.
Cintra observa que, historicamente, a redução no número de leitos tem sido acompanhada por um aumento na rotatividade. Ou seja, com menos leitos disponíveis, o sistema de saúde tem conseguido realizar um maior número de internações. No entanto, o desafio permanece, especialmente para os leitos psiquiátricos, que têm enfrentado a maior queda no período atual.
Impactos na Saúde Materna e Psicológica
A sanitarista Ligia Bahia, doutora em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), atribui a redução dos leitos psiquiátricos às mudanças promovidas pela reforma da saúde mental, que prioriza o atendimento em Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) em vez de internamentos prolongados. Bahia destaca que, embora a política atual busque promover cuidados dignos e integrados, sua eficácia depende da robustez da rede de atendimento, que ainda apresenta desigualdades em várias regiões do Brasil.
Ligia também expressa preocupação com a diminuição dos leitos obstétricos em um país que ainda registra altas taxas de mortalidade materna. Somente em 2025, foram documentados 42.712 óbitos relacionados à gestação, parto ou pós-parto, conforme o Painel de Monitoramento da Mortalidade Materna. Para ela, a redução na taxa de fecundidade não diminui a necessidade de manter uma infraestrutura adequada de maternidades, fundamental para prevenir mortes evitáveis.
