A Importância dos Sebos na Cultura Local
No início do Ano Novo, surge uma movimentação notável nas casas de Belém, onde muitos optam por se desfazer de itens antigos, simbolizando a renovação e a passagem a uma nova etapa na vida. Essa tendência resulta em um aumento significativo na procura por sebos e antiquários, especialmente durante o período de festas. Luís Branco, proprietário do sebo Papiro Branco, localizado na Universidade Federal do Pará (UFPA), observa que este é um momento em que as doações, vendas e trocas ganham destaque. Ele destaca que o final do ano é um período em que os sebos recebem uma quantidade maior de livros, CDs, discos de vinil, além de antiguidades como cédulas e moedas.
“As festas de fim de ano fazem com que as pessoas queiram reorganizar suas casas para receber amigos e familiares, e isso evidencia objetos que já não fazem parte do cotidiano”, explica Luís. Essa busca por renovação acaba levando muitos a se dirigirem aos sebos, livrarias e antiquários para se desfazer de itens que não são mais utilizados.
Processo Humanitário e Memórias
Luís ressalta que a coleta desses materiais é realizada de maneira cuidadosa e respeitosa, considerando que muitos itens pertencem a pessoas queridas que já faleceram. “Entendemos que a doação ou o descarte desses objetos é, muitas vezes, uma forma de lidar com o luto e com a memória. Por isso, fazemos essa coleta de uma forma muito respeitosa”, afirma ele. Mesmo itens que não possuem valor comercial, como livros de Direito antigos, são devidamente recolhidos, pois representam uma parte da história de alguém.
Uma das histórias mais marcantes vivenciadas por Luís foi a de uma mãe que, após perder o filho em um acidente de carro, decidiu abrir o quarto dele, seis anos após a tragédia, e chamar o sebo para recolher os pertences. A mãe ficou satisfeita ao saber que os livros do filho, um estudante da UFPA, seriam reutilizados por outros alunos. “Para nós, a coleta não envolve apenas itens físicos, mas representa a coleção de vida de alguém”, afirma.
Renovação e Acesso Cultural
Após o processo de triagem, os materiais são organizados: parte é destinada à venda, outra às doações, enquanto o que não tem mais utilidade vai para a reciclagem. O público que frequenta o sebo é predominantemente formado por estudantes e professores universitários, mas também há visitantes externos que já conhecem o local. As doações tendem a ser feitas principalmente por mulheres, muitas vezes viúvas, que buscam desprender-se de coleções que pertenciam aos maridos. Curiosamente, Luís percebe uma mudança de comportamento entre os jovens, que têm demonstrado uma crescente apreciação por itens antigos, como discos de vinil e fitas cassete.
Para Luís Branco, os sebos desempenham um papel vital no acesso à cultura. Ele considera o Papiro Branco uma alternativa às grandes livrarias, onde os preços costumam ser exorbitantes. “Em grandes livrarias, um livro pode custar entre 50 e 60 reais. No meu sebo, a pessoa pode sair com 10 ou 15 livros por esse preço”, explica. O espaço ainda conta com uma seção especial onde títulos são vendidos a preços baixos, contribuindo para democratizar o acesso à cultura e à informação.
Herança Cultural e Sustentabilidade
O sebo também se destaca por oferecer materiais em desuso, como livros esgotados e discos raros, muitos dos quais têm grande importância na literatura paraense. “Muitas obras de autores locais não são mais publicadas e existem poucas cópias disponíveis. Nosso objetivo é mantê-las acessíveis dentro da universidade”, afirma Luís. Ele acredita que o sebo é fundamental para a difusão da cultura e da literatura, especialmente para estudantes que ainda não estão inseridos no mercado de trabalho.
Refletindo sobre o significado da renovação no início do ano, ele menciona: “Renovar é abrir espaço para o novo. Quando um quarto está cheio de coisas que não utilizamos, ele não tem uma função. O melhor destino é a circulação desses itens, compartilhando conhecimento”. Para Luís, o ato de desprender-se do que não é mais necessário é essencial para dar espaço a novas possibilidades.
Histórias e Conexões no Mercado de Vinil
Discos de vinil, CDs e outros materiais relacionados à música continuam a circular em Belém, trazendo consigo histórias e conexões afetivas. Localizada na avenida Presidente Vargas, a banca “Mangue Boy Discos” se destaca como um espaço onde se compra, vende e troca esses itens. Fernando Augusto Vansley Souza, conhecido como ‘Mangue Boy’, observa que, embora recebam doações, a compra e venda são os principais motores do negócio. “Recebemos muitos livros, CDs e DVDs relacionados à música, mas o foco é a troca e revenda de clássicos”, comenta.
Quando itens doados não são apropriados para revenda, eles são direcionados a uma ONG com a qual o espaço mantém parceria. “Nada se perde. Todo material é aproveitado de alguma forma”, garante Fernando. A procura por discos de vinil, considerados raros, é intensa, e muitas vezes a loja não possui várias cópias de um mesmo álbum, atendendo a um público exigente.
A Cultura do Vinil e a Diversidade de Público
O apelo dos discos de vinil se estende a diferentes gerações. Fernando relata que jovens, DJs e pessoas mais velhas frequentam sua banca, todos em busca de um item especial que tenha significado. Para ele, o vinil transcende o valor comercial. “Não é apenas uma compra, mas uma conexão com a memória e a emoção”, afirma. O nome ‘Mangue Boy’ remete a uma forte influência cultural, refletindo a rica história musical da região.
Assim, tanto os sebos quanto as bancas de discos em Belém são mais do que simples espaços de comércio. Eles representam um elo entre memória, cultura e renovação, mantendo viva a ideia de que o conhecimento e a história devem continuar a circular.
