Apoio Emocional para os Enlutados
No Jardim Colombo, região de Vila Sônia, em São Paulo, o jovem Wellington Barreto dos Santos, de 25 anos, expressa seu desejo de reencontrar a felicidade através da música ‘Girassol’, de Priscilla Alcântara e Whindersson Nunes. Essa escolha é parte dos exercícios propostos pela psicóloga Pamella Becegati, responsável por um grupo de luto na UBS da região. Durante uma das sessões, em dezembro, Wellington compartilhou suas experiências com outros membros do grupo, revelando como a dor de perder duas tias e um amigo desencadeou uma grave crise de ansiedade.
‘Uma das tias eu perdi há cinco anos. Tínhamos muito convívio, e muitos sonhos juntos. Levo o retrato dela em todas as viagens. A outra tia eu a tirei morta de casa. Foi como arrancar um pedaço do meu coração’, destacou Wellington. Ele ainda recorda a tragédia do amigo, que morreu em um acidente. ‘Sofri calado esse tempo, sem contar nem para meus pais. Aqui no grupo encontrei carinho e passei a enxergar a vida de novo’, completou.
Para Pamella, a música é uma ferramenta poderosa de reflexão. ‘Qual foi o primeiro pensamento que tiveram? Quais memórias são trazidas à tona?’, questiona. O luto, que pode manifestar-se de várias maneiras, é considerado pelo Ministério da Saúde um transtorno mental quando se prolonga, indicando a necessidade de apoio psicológico.
Busca por Acolhimento e Compreensão
Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, os que enfrentam o luto e necessitam de suporte emocional podem buscar acolhimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). O atendimento pode ser individual ou em grupos, frequentemente acompanhados por uma equipe multiprofissional, incluindo assistentes sociais que ajudam nos encaminhamentos necessários.
Massumi Hirota Tunkus, de 65 anos, relata que não conseguiu viver o seu luto após a morte do marido, há 18 anos. A preocupação com os filhos e sua mãe, que sofreu um AVC, a impediram de processar a dor. ‘Cheguei no grupo há três meses e encontrei uma família. Aqui ninguém me recrimina’, comenta. A dor da perda é algo que ressoa em muitos que participam destas reuniões.
Solange Maria de Assunção Modesto, 61 anos, ainda se recupera da perda da irmã, que faleceu em decorrência de uma infecção após um transplante de medula óssea. ‘Estamos todos tentando nos recompor. Essa troca de experiências nos fortalece’, enfatiza.
Dinâmicas e Experiências Compartilhadas
Durante as sessões, os participantes são incentivados a segurar pinhas de eucalipto, que, segundo Pamella, simboliza a reflexão interna sobre suas emoções e a busca por mudanças. ‘A missão é olhar para dentro das pinhas e refletir sobre como estão por dentro’, explica a psicóloga.
Maria Neuza Ferreira da Silva, de 71 anos, também encontrou ajuda no grupo após a morte de seu marido em decorrência de leucemia. Sua filha, Leirilene Ferreira da Silva, de 50 anos, contou como a terapia ajudou Maria Neuza a começar a se recuperar: ‘Ela tinha perdido a alegria de viver, mas agora, após meses de terapia, já está conseguindo sair e se relacionar novamente’.
Os encontros do grupo de luto na UBS Jardim Colombo, que ocorrem todas as segundas-feiras às 16h e têm duração de 50 minutos, oferecem um espaço seguro para que os participantes elaborem suas emoções e desenvolvam conexões uns com os outros. ‘Utilizamos dinâmicas diversas, como músicas e a escrita em diários, para promover a expressão emocional’, finaliza Pamella.
