Desafios e Estratégias em Tempos de Crise
A Vila Galé já está sentindo os efeitos do conflito no Oriente Médio, que provocou um aumento significativo nos custos operacionais devido à escalada dos preços da energia. “Todas as matérias-primas essenciais que utilizamos dependem do transporte aéreo ou terrestre. Com o aumento do preço do petróleo, tudo se encarece. O impacto dos custos já é visível”, relata Jorge Rebelo de Almeida, presidente da segunda maior rede hoteleira de Portugal, em entrevista ao DN/DV.
Embora a fatura com os fornecedores tenha aumentado, o empresário garante que a empresa optará por absorver esses custos, evitando repassar os aumentos aos consumidores. “Estamos dispostos a suportar esses encargos e temos flexibilidade para ajustar nossas operações sem onerar o cliente. Somente em situações extremas consideraríamos um aumento de preços”, afirma.
Rebelo de Almeida lembra que o grupo, fundado há mais de 40 anos e com um portfólio de 52 hotéis espalhados por Portugal, Brasil, Cuba e Espanha, já atravessou diversas crises sem nunca aumentar seus preços. Contudo, a eficiência na gestão pode ter consequências nas contas do grupo ao final do ano.
Após alcançar resultados recordes em 2025, com um crescimento de 15% nas receitas, totalizando 321,5 milhões de euros, as perspectivas de crescimento para os próximos meses foram reduzidas. “Se não fosse pela guerra, esperávamos um crescimento modesto este ano. No Brasil, a expectativa é de um desempenho positivo, enquanto em Portugal, com muitos hotéis em construção, o crescimento será mais difícil de alcançar”, reconhece.
Oportunidades em Meio à Crise
Ainda assim, o presidente da Vila Galé observa que a demanda continua estável, com as reservas mantendo um bom patamar. Além disso, ele acredita que Portugal pode se beneficiar da migração de turistas de regiões afetadas pelo conflito. “É triste dizer que uma guerra pode nos trazer benefícios, mas é verdade. Mercados tradicionais como a Tunísia, Turquia e Egito podem sofrer perda de turistas, o que abre espaço para um aumento na procura por Portugal e Espanha, que estão distantes do conflito”, destaca.
O início de 2026 trouxe desafios adicionais para a rede hoteleira. Além da instabilidade geopolítica, a Vila Galé teve que suspender suas operações em Cuba devido às sanções dos Estados Unidos, que agravaram a crise energética na ilha. “Fechamos as portas porque não havia energia elétrica ou combustíveis disponíveis. É claro que isso trouxe prejuízos, mas conseguimos suportar. O que realmente me preocupa é o bem-estar da nossa equipe, que está enfrentando dificuldades”, lamenta.
Com quatro unidades em Cuba, a Vila Galé é o único grupo hoteleiro português presente na região, e mesmo diante da instabilidade, o interesse em expandir a operação permanece. “Há potencial para novos investimentos em Cuba, com hotéis bem localizados e praias deslumbrantes. Acredito que o turismo será fundamental para o desenvolvimento econômico do país”, ressalta Rebelo de Almeida.
Planos de Expansão e Novas Oportunidades
Embora ainda não haja uma previsão definida para reabertura das unidades em Cuba, ele se mostra otimista quanto a um futuro acordo. “Acredito que em breve haverá um entendimento para retomar as operações”, destaca. O plano de expansão do grupo é robusto, com mais de dez hotéis em desenvolvimento em Portugal e Brasil, com investimento total de 215 milhões de euros. Além disso, negociações estão em andamento para iniciar operações em Cabo Verde.
“Identificamos várias oportunidades em São Vicente e já iniciamos algumas avaliações. Estamos aguardando um retorno”, confirma o empresário. No entanto, Rebelo de Almeida adverte que a expansão internacional deve ser feita com cautela. “Não temos pressa. Estamos no momento com muitos projetos em mãos, o que traz uma carga significativa de trabalho. Nossa capacidade de implementação não é ilimitada”, observa.
No mercado espanhol, onde o grupo estreou em 2024 com o Vila Galé Isla Canela, as atenções se voltam agora para Madrid. No entanto, os altos preços estão dificultando essa expansão. “Continuamos em busca de oportunidades na capital, mas os custos são elevados, especialmente em um momento em que o turismo na Espanha está em alta”, explica. Recentemente, a Vila Galé reabriu o Vila Galé Ampalius, em Vilamoura, que passou por uma modernização de oito milhões de euros.
Compromisso com a Qualidade e Inovação
Além dos novos projetos, Rebelo de Almeida destaca a importância de não se acomodar diante de um cenário favorável para o turismo. “É essencial que continuemos a valorizar nossa oferta. O turismo vai além de ser apenas um espaço para dormir e comer. Precisamos inovar e oferecer experiências diferenciadas”, sublinha. No Algarve, a Vila Galé já possui nove hotéis, e um novo investimento só será considerado se realmente se justificar.
Na agenda de expansão do grupo, estão programados seis novos hotéis em locais como Golegã, Penacova, Miranda do Douro, Oeiras, Lisboa e na ilha Terceira. No Brasil, as próximas unidades serão em Alagoas, Maranhão, Santa Catarina e Minas Gerais.
O empresário também elogiou a atuação da TAP na operação transatlântica, comemorando o anúncio de novas rotas no Brasil, incluindo Curitiba e São Luís do Maranhão, onde a Vila Galé está finalizando duas unidades. “A antecipação da abertura para coincidir com os novos voos será um desafio, mas estou animado com isso. Queremos fazer uma grande festa para marcar a chegada dos voos da TAP”, conclui. A Vila Galé planeja ainda uma parceria promocional com a companhia em Curitiba para divulgar seus hotéis.
