Explorando a Presença Feminina no Graffiti
O graffiti, uma forma de expressão artística reconhecida e legalizada desde 2024, tem suas origens na década de 1980. Ao desembarcar no Brasil, especialmente vindo dos Estados Unidos, essa arte urbana ganhou uma identidade própria, refletindo a cultura local. Atualmente, o graffiti se faz presente nas paredes de centros urbanos e nas periferias de todo o país.
No contexto de São Luís, esse movimento também é impulsionado por mulheres que decidiram ocupar as ruas da capital, levantando suas vozes em um clamor por resistência e igualdade. O Imparcial conversou com duas dessas artistas visuais: Geiza Soares e Maria Nina, que compartilham suas experiências e desafios.
Geiza Soares: Uma Voz de Representatividade
Atuando na cena desde 2015, Geiza Soares, que assina como ELLA, observou a escassez de representatividade feminina em um espaço artisticamente dominado por homens. Embora tenha enfrentado desmotivação no início de sua trajetória, ela decidiu não desistir. “Dei uma pausa logo depois que comecei por não conseguir me ver representada nas ruas (pela ausência de mulheres), pelo medo de estar só. A partir de 2017, percebi que poderia ser a representatividade que eu buscava fora. Assim, iniciei minha caminhada e permaneci ativa desde então”, relata Geiza.
Ela destaca que ser mulher e atuar neste meio é complexo, especialmente como uma artista LGBTQIAP+. “Não performo a feminilidade que é esperada, mas isso está mudando; cada vez mais mulheres se juntam ao movimento”, observa a artista.
Maria Nina: Insistindo na Visibilidade Feminina
Outra voz que ecoa nas ruas é a de Maria Nina, graduanda em Artes Visuais na UFMA. A arte do graffiti entrou em sua vida na infância, quando prometeu a uma amiga que também se tornaria uma artista. Hoje, sob a tag FÚRIA, ela pinta figuras femininas que representam resistência à opressão. “As mulheres devem estar sempre estampadas nos muros da cidade”, afirma Nina, enfatizando a necessidade de visibilidade feminina em sua arte.
Pintar é um Ato de Resistência
Geiza, que é formada em Artes Visuais, ressalta os perigos que as mulheres enfrentam ao pintar nas ruas. “Pintar na rua sendo mulher é arriscado. Muitas vezes estamos de costas para a rua, o que aumenta a vulnerabilidade. Por isso, tentamos sempre pintar em grupo, já que a violência é uma realidade crescente”, diz.
Nina complementa essa visão, reconhecendo a violência de gênero como um dos maiores obstáculos para as mulheres no Maranhão, especialmente nas áreas rurais. “Durante minha participação em eventos de apoio à luta pela terra, conheci mulheres incríveis que resistem à crueldade do Estado enquanto criam filhos igualmente resilientes. Recentemente, fiz um mural no evento ‘Dia das Crianças do Povo no Gurupi’, abordando essa luta e a necessidade de continuidade”, relata.
O Processo Criativo e Coletivo
O processo criativo de ambas as artistas é profundamente enraizado no coletivo e no território em que atuam. Maria Nina explica que o graffiti, para ela, é uma forma de arte colaborativa. “Normalmente busco locais onde eventos coletivos estão ocorrendo. Pinto em bairros, escolas e periferias, sempre dialogando com lutas populares e referências da cultura Hip Hop, além de elementos da cultura maranhense, como o reggae”, conta.
Geiza também baseia sua arte na observação do ambiente. “O que me motiva é deixar uma mensagem, seja com palavras ou personagens. Eu olho para o bairro, a história e as pessoas ao meu redor. A partir disso, com respeito ao local, começo a plasmar minhas ideias”, afirma.
Um Recado para as Futuras Artistas
Quando perguntadas sobre o que diriam às novas gerações de artistas visuais que vão levar adiante seus legados, Geiza e Nina foram firmes. “Meninas, vocês podem ser o que quiserem! Acreditem em si mesmas e tenham coragem”, destacou Geiza. Nina, em tom encorajador, enfatizou: “não tenham medo, pois a importância da arte é muito maior que isso. Se alguém esquecer que as mulheres são pilares históricos do graffiti e do Hip Hop, que se lembre disso todos os dias e que o movimento siga em frente”.
