Reflexões sobre o Impacto da Pandemia no Maranhão
No dia 29 de março de 2020, o Maranhão se deparou com a triste realidade da pandemia. Um homem de 49 anos, com histórico de hipertensão, faleceu em São Luís. Sua morte, ocorrida apenas nove dias após a confirmação do primeiro caso de coronavírus no estado, marcou o início de um luto coletivo que ainda ecoa nas memórias das famílias maranhenses. Naquele momento, poucos imaginavam que ele seria apenas o primeiro de muitos a sucumbir à doença.
A incredulidade e o medo se espalharam rapidamente pela capital. Era um tempo em que a palavra “coronavírus” ainda soava estranha para muitos. Apesar da incerteza, a necessidade de ações imediatas se tornou clara. Essa, sem dúvida, é uma das lições mais duras que a gestão em crise pode nos ensinar.
A lembrança das ruas de São Luís, esvaziadas e silenciosas, ainda persiste. A partir do dia 21 de março, os comércios não essenciais fecharam, e as famílias se recolheram em casa. Crianças ficaram sem aulas, sem a companhia dos amigos e sem os abraços carinhosos de avós. Em um estado já marcado por desigualdades, a chegada da pandemia agravou ainda mais a situação, como se fosse uma sentença adicional para os mais vulneráveis.
Nos meses iniciais da crise, minha rotina foi marcada pela abertura de leitos e a busca incessante por insumos médicos. O Sistema Único de Saúde (SUS) se revelou resistente e eficiente, mostrando uma força que muitos já conheciam, mas que se destacou de maneira surpreendente nesse período. Entretanto, a fragilidade de depender de equipamentos importados se tornou evidente, revelando que o Brasil carecia de uma estratégia robusta para enfrentar a pandemia.
Quatro meses após o primeiro caso, quando a taxa de transmissão parecia apresentar sinais de queda, foi necessário conter o alívio. Alertava em reuniões e entrevistas sobre o risco de novas ondas de contágio, inspirado pelo que já ocorria em outros países. Contudo, muitos preferiam ignorar os alertas, acreditando que o pior já havia passado, o que, lamentavelmente, não se confirmou.
Ao assumir a presidência do Conass, levei comigo uma certeza: em crises dessa magnitude, a coordenação e a colaboração são mais importantes que o protagonismo individual. Meu foco foi estabelecer um diálogo efetivo entre os estados, ouvindo atentamente os secretários de saúde de todo o Brasil. No entanto, a ajuda do governo federal era escassa, uma realidade que eu não hesitei em destacar, pois silenciar sobre isso poderia custar vidas.
Aprendi, durante aqueles meses desafiadores, que a informação precisa é um dos maiores ativos que um gestor pode ter. Os sistemas frequentemente falhavam, os dados chegavam incompletos e as decisões precisavam ser tomadas muitas vezes sem clareza. Universidades e pesquisadores mostraram-se pilares de apoio, enquanto o controle social, quando eficaz, demonstrava seu valor inestimável.
Durante a pandemia, escrevi cartas para meus filhos, Ana e João, que ainda eram crianças. Luísa ainda não havia nascido. Essas cartas foram uma forma de documentar a vivência naqueles tempos incertos, um legado para que, no futuro, eles pudessem entender o que fizemos. Um ano após março de 2020, quando o Brasil enfrentava seu pior momento, prometi a eles um Maranhão mais justo e seguro. As promessas feitas em períodos sombrios carregam um peso maior.
Hoje, seis anos depois, reflito sobre as histórias que foram interrompidas. Cada vida perdida deixou um vazio: pais sem filhos, filhos sem pais, e sonhos que foram suspensos. Em um estado com vulnerabilidades econômicas e falta de cooperação institucional, cada perda foi um golpe que os números não conseguem quantificar.
Contudo, o Maranhão mostrou resiliência. De São Luís aos outros 216 municípios, algo extraordinário aconteceu: as pessoas se cuidaram, os profissionais de saúde se dedicaram intensamente, e o SUS, mesmo com suas imperfeições e limitações financeiras, foi a única saída viável. E, surpreendentemente, foi suficiente, embora a um custo altíssimo. Quatro anos após o início da crise, a ONU reconheceu que se o Brasil tivesse adotado as medidas do Maranhão, cerca de 300 mil vidas poderiam ter sido salvas. Isso valida nossas decisões.
Hoje, rendo homenagem ao homem de 49 anos, cujo nome poucos conhecem, e a todos que se foram. Reconheço o esforço dos médicos, enfermeiros e agentes comunitários que permaneceram firmes quando tudo ao redor parecia desmoronar. E celebro a vida que, apesar de todos os desafios, persiste.
Seis anos nos ensinam muito. E se estivermos dispostos a ouvir, também podem nos proteger.
