Como a Tecnologia Está Mudando a Busca por Diagnósticos
No ano de 2022, Margie Smith enfrentou uma série de problemas de saúde que a levaram a visitar diversos especialistas. Desde alergistas, pneumologistas, até cardiologistas, ela buscou ajuda para uma tosse persistente, falta de ar e até mesmo para um refluxo severo. Contudo, apesar da diversidade de profissionais consultados, Margie sentiu que a maioria estava limitada às suas áreas de especialização e não conseguiu montar um diagnóstico completo de sua condição. “O sistema de saúde realmente falhou comigo”, desabafa. “É bom depender de IA para aconselhamento médico? Acho que não. Mas é a opção que tenho disponível.”
De acordo com pesquisas recentes, um terço dos adultos já recorreu a chatbots para buscar orientações sobre saúde. Uma reportagem anterior do The New York Times destacou que muitas das usuárias desses serviços são mulheres com doenças crônicas complexas, que frequentemente levam anos para receber diagnósticos adequados. Essa demora ocorre não apenas por causa da multiplicidade dos sintomas, que abrangem diversas especialidades, mas também porque condições como a Covid longa e doenças autoimunes afetam desproporcionalmente o público feminino, resultando em médicos que minimizam ou procrastinam o tratamento.
No decorrer das entrevistas realizadas pelo jornal, centenas de pessoas compartilharam suas experiências com o uso de inteligência artificial para obter informações sobre saúde. Muitas mulheres relataram que, embora os chatbots frequentemente fornecessem informações incorretas e até mesmo erros graves, ainda assim preferiam essa opção a depender apenas dos médicos, que muitas vezes não conseguiam entender suas queixas. James Landay, codiretor do Instituto de IA Centrada no Humano da Universidade Stanford, reconhece que, embora existam inúmeros problemas no uso de chatbots, é preciso entender por que as pessoas se voltam para essa tecnologia.
Autodiagnóstico e os Riscos Associados à Tecnologia
A prática de autodiagnóstico não é nova. Pacientes já faziam isso utilizando fóruns, redes sociais e ferramentas como Google e WebMD. Existem muitos relatos de pessoas ignoradas por médicos que, ao pesquisarem por conta própria, estavam corretas, assim como há casos em que pacientes seguiram tratamentos não oficiais e tiveram resultados desastrosos. Dentro desse contexto, usar IA para superar falhas do sistema de saúde é apenas uma nova faceta de uma história antiga, como explica John J. Whyte, CEO da American Medical Association. No entanto, a natureza da tecnologia torna essa prática mais acessível e, ao mesmo tempo, mais arriscada.
Chatbots geralmente solicitam que os usuários forneçam detalhes sobre seus históricos médicos, incluindo resultados de exames. Ao fazer isso, podem oferecer respostas que parecem personalizadas e confiáveis, mesmo quando não são. Algumas startups estão desenvolvendo tecnologias de IA focadas no diagnóstico de doenças, mas Landay observa que os chatbots generalistas “não passaram por avaliações rigorosas” para garantir diagnósticos precisos e podem cometer erros significativos.
Patty Costello, uma pesquisadora de Idaho, teve uma experiência bem-sucedida com um chatbot. Após anos de sintomas não diagnosticados, que incluíam crises de náusea e fadiga, ela decidiu descrever seus problemas ao ChatGPT. O chatbot sugeriu a síndrome de ativação de mastócitos (MCAS), que se encaixava perfeitamente nos sintomas relatados. Após levar essa hipótese a um alergista, Costello finalmente recebeu o diagnóstico e, com tratamento, relatou uma melhora de cerca de 80% em sua qualidade de vida. Contudo, sua história não é representativa da maioria das experiências.
Desafios da Interação com Chatbots de Saúde
Um estudo recente revelou que pessoas sem formação médica que utilizaram chatbots para buscar diagnósticos acertaram menos da metade das vezes. Além disso, alguns pacientes acabaram se apresentando a médicos com diagnósticos errôneos, enquanto outros ignoraram problemas sérios devido a garantias falsas fornecidas pelos chatbots. Embora ninguém relatou ter sofrido danos físicos em decorrência dessas interações, médicos já atenderam pacientes que se expuseram a riscos por conta de informações inadequadas.
Um porta-voz da OpenAI, responsável pelo ChatGPT, afirmou que o estudo não reflete o uso real da ferramenta e destacou que os modelos evoluíram ao longo do tempo, mas ainda não podem substituir a orientação médica profissional.
A Importância da Alfabetização Científica
A alfabetização científica é fundamental para o uso responsável de tecnologias como chatbots, especialmente para aqueles que não têm formação na área. Exemplos de sucesso frequentemente envolvem usuários com conhecimento prévio em saúde, como Caroline Gamwell, uma fisioterapeuta que conseguiu identificar a síndrome da congestão pélvica após descrever seus sintomas ao ChatGPT. Ela, assim como outros, reconhece que nem todos os pacientes teriam a capacidade de interpretar as sugestões oferecidas por esses serviços de forma crítica. No entanto, muitos ainda veem valor em utilizar chatbots para identificar padrões de sintomas e explorar novas opções de tratamento, desde que com cautela e sempre mantendo o acompanhamento médico adequado.
