A Revolução do Reggae Feminino em São Luís
No recente Festival Ilha Dub, realizado em São Luís, uma conexão inesperada se formou entre um jovem inglês e a riqueza cultural da região. Em meio à energia contagiante do evento, ele exclamou, com seu sotaque característico: “O Maranhão é Reggae, oh, Pedrooo”. Em resposta, com um sorriso largo, brinquei: “Oh, yes, Mr. Jimmy Scott, o Maranhão Is Roots Reggae”. Esse momento capturou a essência da festa, onde ritmos e culturas se entrelaçam.
A diáspora africana nos presenteou com uma sonoridade rica, originada na Jamaica, que se incorporou à identidade maranhense, unindo-se ao bumba meu boi e ao tambor de crioula. Essa mistura, que se cristalizou na Ilha do Amor, é parte importante da herança cultural da humanidade.
O Papel das Mulheres no Reggae
Historicamente, o reggae tem sido dominado por artistas masculinos, mas em São Luís, algumas mulheres começaram a se destacar. Elas atuam tanto como DJ’s em radiolas quanto como cantoras, mostrando-se empoderadas e protagonistas no cenário musical. A parceria entre Célia Sampaio e Núbia é um marco que simboliza resistência e renovação no reggae feminino no Brasil. Com São Luís sendo reconhecida como a “Jamaica brasileira”, a união dessas duas gerações fortalece a presença da mulher negra e LGBTQIAP+ na música.
Célia Sampaio, a primeira mulher a gravar reggae no Brasil, abriu portas nos anos 1980 ao lançar um álbum que quebrou barreiras. Iniciando sua jornada em 1984 com o Bloco Afro Akomabu e fundando a banda Guethos, que fez história ao se apresentar no Teatro Arthur Azevedo, Célia se tornou um ícone no movimento. Suas canções vão além do ritmo, abordando a luta do povo negro e unindo o reggae às raízes afro-maranhenses.
Núbia: Uma Nova Geração do Reggae
Por sua vez, Núbia se firmou como uma das promessas do reggae brasileiro na última década. Seu álbum “Sabores”, lançado em 2024, recebeu reconhecimento no TMDQA 2025. As composições de Núbia são inspiradas em suas vivências como mulher negra e LGBTQIAP+, trazendo uma nova perspectiva para o cotidiano de São Luís através do reggae. A artista, que participou do Edital Natura Musical 25/26, é uma representante do reggae maranhense em outros estados, mantendo viva a essência do gênero.
Desde 2016, quando começou sua trajetória na cena universitária, Núbia adotou seu nome artístico e se distanciou do sobrenome, mas nunca deixou de lado sua paixão pelo reggae. Em suas redes sociais, ela expressa a força que o ritmo exerce: “Esse som nos inspira a lutar contra discriminações, opressões e injustiças sociais”.
A Conexão entre Gerações
A colaboração entre Célia e Núbia, presente em festivais como Afropunk e Mana, representa uma ponte entre a tradição do reggae brasileiro e sua evolução contemporânea. Essa união é um exemplo poderoso de solidariedade e empoderamento feminino, proporcionando shows vibrantes e compartilhando experiências. Juntas, elas reivindicam um espaço de protagonismo na cena, mostrando que as mulheres têm um papel fundamental no reggae, frequentemente dominado por homens.
Célia e Núbia são símbolos de continuidade e renovação na música maranhense, reafirmando o papel da mulher não apenas como intérprete, mas como criadora e protagonista de sua própria narrativa musical no Brasil.
Desbravadoras do Reggae
A história do reggae raramente destacou as contribuições femininas, mas mesmo diante de tantos obstáculos, as mulheres cortaram caminhos espinhosos com determinação. Elas enfrentaram e ainda enfrentam desafios, mas com garra e talento, não se deixaram silenciar, mostrando que o reggae também é delas.
