Desafios no Consumo de Vegetais
Em São Luís, Otília Duarte, de 45 anos, levanta-se antes das cinco da manhã. Mãe de dois filhos e avó de uma menina de três anos, ela sustenta a casa vendendo café da manhã na porta de sua residência. Apesar do aroma do café fresco e da correria dos primeiros clientes, Otília reconhece que manter uma alimentação saudável não é tarefa simples. “Eu sei que fruta é importante, mas nem sempre dá pra comprar. Tem dia que a gente escolhe o que vai render mais”, desabafa.
Essa realidade reflete uma preocupante estatística nacional. Um recente estudo publicado na revista Cadernos de Saúde Pública revela que, embora 34% dos adultos brasileiros consuma frutas e hortaliças com frequência, apenas 22,5% alcançam a quantidade recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que sugere a ingestão de pelo menos cinco porções diárias, totalizando cerca de 400 gramas. O baixo consumo de vegetais é atribuído a fatores como o aumento dos preços e a facilidade de acesso a alimentos ultraprocessados.
Influências Regionais e Culturais
No Maranhão, mesmo com a vasta oferta de produtos naturais, muitos enfrentam dificuldades em manter uma dieta equilibrada. Segundo Jéssica Lustosa, nutricionista da Hapvida, essa situação é influenciada por diversos fatores. “Muitas frutas regionais são sazonais e nem sempre estão disponíveis a preços acessíveis nas áreas urbanas. Além disso, existe um fator cultural que faz com que alguns alimentos sejam vistos como lanches, em vez de integrarem as refeições principais”, explica.
A rotina agitada dos brasileiros também contribui para a escolha de alimentos menos saudáveis. “A praticidade tem um peso significativo nas decisões alimentares. Os alimentos ultraprocessados são frequentemente preferidos, enquanto pratos tradicionais acabam sendo ricos em carboidratos e gorduras, demandando equilíbrio na alimentação”, observa Jéssica. A nutricionista ainda alerta que esses produtos podem “viciar” o paladar, tornando frutas e verduras menos atrativas com o passar do tempo.
Consequências da Baixa Ingestão de Vegetais
As repercussões do baixo consumo de vegetais são visíveis desde a infância e afetam pessoas de todas as idades. “Para as crianças, a deficiência de vegetais pode comprometer o desenvolvimento e aumentar os riscos de obesidade e deficiência de vitaminas. Já nos adultos, isso pode levar a doenças como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares”, destaca Jéssica Lustosa. Além disso, a falta de fibras prejudica o funcionamento do sistema digestivo.
Estratégias para Melhorar a Alimentação
Apesar das dificuldades, Otília tenta inserir frutas na dieta da família sempre que possível. “Quando consigo comprar na feira, levo banana e melancia para minha neta”, revela. A nutricionista sugere que pequenas mudanças na rotina podem ajudar a superar esses obstáculos, como aproveitar os alimentos da estação, deixar frutas e verduras já lavadas e prontas para o consumo e introduzir esses itens aos poucos nas refeições.
“Comprar frutas da estação em feiras locais é uma ótima estratégia para economizar. Além disso, manter os alimentos limpos e porcionados na geladeira facilita o acesso na hora das refeições”, orienta. E caso o hábito de consumir vegetais ainda não esteja estabelecido, a mudança pode ser gradual. “Não há necessidade de uma transformação radical. Adicionar uma fruta como sobremesa ou misturar legumes ao arroz e feijão é um bom começo”, sugere. Valorizar os alimentos regionais é igualmente importante. “Trocar um biscoito recheado por uma fruta ou um suco natural pode ser um grande avanço”, conclui.
Entre os desafios financeiros e a correria do dia a dia, Otília se esforça para equilibrar as escolhas alimentares da família. “Sei que é possível ter uma alimentação mais saudável. Mesmo com as dificuldades, a gente vai fazendo o que pode”, finaliza.
