O Legado de um Gênio da Geografia
Nas ruas de São Luís, no Maranhão, um fenômeno econômico se destaca: mercadinhos e feiras populares que surgem em meio às grandes redes de supermercados. Esse contraste entre os estabelecimentos revela uma dinâmica complexa de exclusão e desigualdade, tema amplamente estudado pela pesquisadora Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP) e colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Para entender essa realidade, Livia recorre à teoria desenvolvida na década de 1970 por Milton Santos.
Comemorando seu centenário neste 3 de maio, Milton Santos, que faleceu em 2001 aos 75 anos, permanece uma referência fundamental nas análises socioeconômicas contemporâneas, tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo.
Teoria dos Circuitos Urbanos
A proposta teórica de Milton divide a economia urbana em dois circuitos: o superior, que congrega grandes empresas com alto nível de tecnologia e capital, e o inferior, composto por pequenos comércios e serviços mais acessíveis à população, mas com menos recursos. “Para as pessoas que vivem nas periferias, é um desafio se deslocar até o centro para consumir. Elas, portanto, iniciam seus próprios negócios, como mercadinhos e quitandas”, ressalta Livia.
Leia também: Guns N’ Roses Inicia Turnê de 9 Shows no Brasil em Abril de 2024
Fonte: belembelem.com.br
Leia também: Ruas: Veias que Irrigam a Cultura Brasileira e Suas Manifestações
Fonte: reportersorocaba.com.br
Ela exemplifica: “No circuito inferior, por exemplo, aqueles que não conseguem comprar uma dúzia de ovos podem adquirir apenas um. Os comerciantes oferecem vendas unitárias, ao contrário das grandes redes, onde a compra mínima é de uma dúzia”. Essa flexibilidade nos pequenos negócios é uma característica essencial para atender às necessidades dos consumidores que vivem nos limites da cidade.
Uma Teoria Aplicada Globalmente
A relevância das teorias de Milton Santos se estende além das fronteiras brasileiras. O projeto em que Livia participa explora essas ideias em contextos urbanos de Gana, na África, assim como em Londres e Paris, na Europa, sublinhando a universalidade dos conceitos do geógrafo.
Milton Santos: Uma Biografia Inspiradora
Nascido em 3 de maio de 1926, na Bahia, Milton Santos destacou-se como um dos mais importantes geógrafos do mundo. Ele obteve seu bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e seguiu para a França, onde se doutorou na Universidade de Strasbourg. Durante a ditadura militar brasileira, foi forçado ao exílio, lecionando em diversas instituições no exterior até seu retorno ao Brasil, onde se firmou como uma voz respeitada na academia e na sociedade.
Sua trajetória foi marcada pela luta contra o racismo estrutural no meio acadêmico e pela construção de um legado que redefiniria a compreensão do espaço geográfico por meio da articulação entre economia, política e sociedade. Ele se tornou uma fonte de inspiração para intelectuais negros, como Catia Antonia da Silva, professora da UERJ, que ressaltou a importância do geógrafo em sua formação acadêmica.
A Análise das Desigualdades
Milton Santos não apenas identificou as desigualdades, mas também elucidou como o espaço não é um mero cenário, mas sim um reflexo de decisões políticas e econômicas. A distribuição desigual dos recursos nas cidades, como infraestrutura e serviços, é resultado de escolhas que favorecem certos grupos e regiões. Ao examinar áreas periféricas que carecem de serviços básicos, o geógrafo propõe que isso representa uma materialização de relações de poder.
“Ele trouxe uma nova compreensão sobre a geografia, mostrando que a desigualdade é historicamente produzida”, explica Catia. O autor, em sua obra “Por uma outra globalização”, criticou sistemas que, embora prometessem progresso, na prática, aprofundavam as desigualdades e desestruturavam economias locais.
Caminhos para a Transformação
Apesar de suas análises críticas, Milton Santos também apontou caminhos para a transformação social. Ele argumentava que as mesmas redes e tecnologias que acentuam desigualdades poderiam ser utilizadas por comunidades locais para criar alternativas econômicas e sociais. Iniciativas que emergem de dentro das periferias demonstram que, na verdade, o território pode ser um espaço de resistência e inovação.
Comemorações do Centenário
O centenário de Milton Santos será celebrado com uma série de eventos ao longo do país. De 4 a 8 de maio, a USP realizará o Seminário Internacional “Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21”, que contará com transmissão virtual, promovendo debates sobre seu legado. No Rio de Janeiro, o Sesc sediará um ciclo de palestras ao longo de maio, enquanto a Universidade Federal do Tocantins organizará um evento internacional em agosto para discutir a obra do geógrafo.
