Reflexões sobre desigualdades urbanas e o legado do geógrafo brasileiro
No coração de São Luís, Maranhão, o contraste entre grandes redes de supermercados e pequenos mercadinhos revela uma realidade de desigualdade econômica. Enquanto os grandes centros comerciais atendem uma clientela com mais recursos, surgem feiras e estabelecimentos que se adaptam às necessidades da população de baixa renda. Essa dinâmica reflete as desigualdades sociais que Milton Santos, geógrafo brasileiro, tanto explorou em suas obras.
Em 3 de maio, celebramos os 100 anos do nascimento de Milton Santos, que faleceu em 2001, mas teve suas teorias reverberando até hoje. Com uma obra vasta e influente, suas reflexões continuam sendo essenciais para entendermos as disparidades socioeconômicas no Brasil e ao redor do mundo.
A principal teoria de Santos divide a economia urbana em dois circuitos: o superior, que abrange grandes empresas com alta tecnologia e capital, e o inferior, composto por pequenos comércios e serviços que atendem a população local com flexibilidade. “As pessoas da periferia têm dificuldade de se deslocar até o centro para consumir. Por isso, abrem seus próprios negócios, como quitandas e mercadinhos”, explica Livia Cangiano, pós-doutoranda da USP e professora na UEMA.
Ela exemplifica que, no circuito inferior, é possível encontrar vendedores que comercializam itens avulsos, como ovos, de forma que mesmo quem não pode comprar uma dúzia tenha acesso ao produto. Essa adaptabilidade é uma característica marcante dos pequenos negócios, diferentes das grandes redes que impõem suas regras.
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A relevância do pensamento de Milton Santos não se limita ao Brasil. Pesquisas em Gana, Londres e Paris também aplicam suas ideias sobre dinâmicas urbanas, demonstrando a universalidade de suas reflexões.
Biografia e luta contra a desigualdade
Nascido em 3 de maio de 1926, na Bahia, Santos se tornou um dos principais nomes da geografia mundial, formando-se na Universidade Federal da Bahia e obtendo seu doutorado na Universidade de Strasbourg, França. Sua trajetória não foi isenta de desafios, sendo exilado durante a ditadura militar no Brasil. Lecionou em várias universidades ao redor do mundo antes de retornar ao país, onde consolidou sua carreira acadêmica.
Santos, um intelectual negro, enfrentou o racismo estrutural tanto na sociedade quanto no ambiente acadêmico, e sua obra tornou-se referência para muitos, incluindo outros intelectuais negros. Catia Antonia da Silva, professora da UERJ, menciona a importância de Santos para a formação de sua geração: “Ele não apenas contribuiu para o conhecimento técnico, mas também ofereceu uma dimensão humana essencial em nossa trajetória como acadêmicos”.
Ainda que a produção de Santos não tenha como foco central a negritude ou a interseção entre raça e classe social, sua crítica social sobre desigualdades é valiosa para analisar questões raciais. Santos sempre se posicionou publicamente em relação ao racismo, defendendo que ser professor universitário não o isentava de experiências discriminatórias.
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Fonte: vitoriadabahia.com.br
Teorias sobre desigualdades e urbanização
Santos trouxe à tona a ideia de que o espaço é construído por decisões políticas e econômicas. A distribuição desigual de serviços e infraestrutura nas cidades não é um acaso, mas uma consequência de escolhas que favorecem determinados grupos. As análises de Santos permitem enxergar a cidade como um reflexo das relações de poder.
“Ele analisa a geografia como um produto das ações do Estado. O avanço do capitalismo no Brasil resultou em desigualdades e na destruição de economias locais. Grupos específicos se beneficiam do processo de modernização”, explica Catia. Em sua obra “Por uma outra globalização”, Santos critica um sistema que promete progresso, mas que na prática acentua as desigualdades.
Outro conceito importante de Santos é o “meio técnico-científico-informacional”, que mostra como a tecnologia e a infraestrutura moldam o território. Ele evidencia a coexistência de áreas bem conectadas e desenvolvidas com regiões que ainda carecem de serviços básicos. Essa dualidade reforça a desigualdade social.
Caminhos para a transformação social
Apesar de seu olhar crítico, Milton Santos também acreditava em possibilidades de transformação. Ele indicou que as redes e tecnologias que ampliam desigualdades podem ser usadas por comunidades para criar alternativas. Iniciativas locais, uso criativo da tecnologia nas periferias e cooperativas podem ser formas de resistência e reinvenção do espaço.
“Ele nos proporciona uma leitura crítica do território brasileiro, nos incentivando a entender as desigualdades na prática, através do contato com a realidade das pessoas”, afirma Livia. “Sua proposta é capaz de nos levar a analisar e repensar a produção do espaço urbano sob novas perspectivas”.
Comemorações do centenário
O centenário de Milton Santos será celebrado com uma série de eventos por todo o Brasil. Palestras e seminários oferecerão espaço para pesquisadores e o público discutir seu legado. O Seminário Internacional “Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21” será realizado de 4 a 8 de maio na USP, com transmissão online. No Rio de Janeiro, o Sesc promoverá um ciclo de palestras ao longo do mês. Em agosto, a Universidade Federal do Tocantins sediará um evento internacional sobre o pensamento de Santos.
