Festival Poesia no Centro: Uma Reflexão sobre o Exílio
Egana Djabbarova nasceu em Ecaterimburgo, na Rússia, um local marcado pela tragédia da Revolução Russa, que em 1918 levou à morte do czar Nicolau II e sua família. No entanto, sua aparência — pele, cabelo e olhos mais escuros que os de suas colegas de escola — sempre a diferenciou, revelando suas raízes azerbaijanas. Filha de imigrantes que buscavam trabalho na União Soviética, Egana hoje reside em Hamburgo, na Alemanha. Já Stefanie-Lahya Aukongo é filha de uma sobrevivente do Massacre de Cassinga, um ataque devastador de forças sul-africanas a um campo de refugiados namibianos em Angola, ocorrido em 1978. Nascida em Berlim, ela lida diariamente com a mesma pergunta: “De onde você vem?”. Por fim, Paula Abramo, que vive na Cidade do México, carrega na história familiar o peso do exílio, seu pai fugindo da ditadura brasileira. Sua história é marcada por um segundo exílio, já que seu avô buscou refúgio na Bolívia para escapar da repressão de Getúlio Vargas na década de 1930. Essa herança familiar a conecta a nomes de destaque, como a atriz Lélia e os jornalistas Claudio, Perseu e Fúlvio Abramo.
Egana, Lahya e Paula são poetas que terão suas vozes destacadas no Festival Poesia no Centro, marcado para ocorrer entre os dias 15 e 17 de maio, no Teatro cultura Artística, em São Paulo. Os ingressos, gratuitos, podem ser adquiridos pela plataforma Sympla. Durante o festival, essas artistas exploram os deslocamentos e as experiências de suas famílias através de suas obras, criando uma nova linguagem que reflete a rica diversidade de idiomas que as cercam, ao mesmo tempo em que meditam sobre a condição de exílio que permeia a vida dos poetas — sejam migrantes ou não.
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O exílio, assim como o amor, tem sido uma fonte inesgotável de inspiração na poesia. A tradição poética revela que até mesmo Safo, a famosa poetisa da Ilha de Lesbos, pode ter encontrado refúgio na Sicília após ser exilada. Dante Alighieri, no século XIV, produziu sua obra-prima, “A divina comédia”, em resposta ao exílio imposto a ele por Florença, e não hesitou em colocar Bonifácio VIII — o papa que contribuiu para seu desterro — no oitavo círculo do inferno. No Brasil, em 1843, Gonçalves Dias expressou sua saudade por sua terra natal, lamentando que as aves de Portugal não cantavam como no Brasil.
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As turbulências políticas do último século geraram um notável número de poetas expatriados que deixaram sua marca na literatura. Entre eles, destaca-se o palestino Mahmoud Darwish, o russo Joseph Brodsky e o brasileiro Ferreira Gullar, que escreveu seu emblemático “Poema sujo” enquanto estava na Argentina. O festival promete ser um espaço rico para explorar essas conexões e as vozes que o exílio proporciona, tornando-se um verdadeiro tributo à força da poesia na superação de barreiras e na expressão de identidades multifacetadas.
