A Influência do reggae na Construção de Identidades Culturais
As identidades são, em essência, construções sociais que envolvem uma série de agentes e contextos. Historicamente, as discussões sobre identidade nacional focavam, em grande parte, nas narrativas das elites, do Estado e da intelectualidade. Mesmo ao abordarem símbolos nacionais como o samba, muitas vezes o protagonismo das classes populares e, em particular, da população negra, era ofuscado ou relegado a um segundo plano. Essa invisibilidade histórica dos anônimos, que por séculos preservaram e divulgaram essas tradições, gera reflexões importantes sobre a identidade cultural.
Nos últimos anos, muitos estudos têm tentado resgatar o papel central desses grupos marginalizados na transformação de práticas antes vistas apenas como pertencentes à cultura negra em verdadeiros símbolos de brasilidade. O reggae, mesmo sendo uma cultura que teve sua origem na Jamaica, se torna um exemplo relevante para discutir como as camadas negras têm exercido sua agência na construção e desconstrução de identidades, tanto na Jamaica quanto em São Luís do Maranhão.
Sem a intenção de criar uma comparação forçada entre um país e uma cidade, é interessante notar que essas duas ilhas do Atlântico Negro, apesar das diferenças geográficas, linguísticas e históricas de colonização – uma sob domínio português e a outra britânico – compartilham alguns elementos que favorecem essa análise cultural.
Leia também: Fauzi Beydoun e o Legado do Reggae Brasileiro em Belém | Cultura
Leia também: Célia Sampaio e Núbia: A Revolução do Reggae Feminino no Maranhão
O amor pelo reggae, que emergiu da Jamaica no final dos anos 1960, talvez seja o mais notável. Esse gênero musical atuou como um catalisador que possibilitou a ambas as localidades a redefinição de suas identidades ao longo do século XX.
A História Cultural de São Luís
O caso de São Luís é particularmente significativo para muitos. Até as primeiras décadas do século XX, o Brasil e a América Latina estavam imersos em projetos de branqueamento que promoviam uma identidade europeia, impulsionada pelas elites brancas. A capital maranhense cultivava essa identidade, sendo conhecida como “Atenas Brasileira”, uma tentativa de se distanciar de sua população negra. Essa narrativa, que retratava São Luís como uma cidade grega e não negra, ignorava a riqueza cultural de seus verdadeiros fundadores e suas contribuições.
A educação de gerações foi moldada por um orgulho de um passado europeu que silenciava a história da escravidão e o racismo que persistiu após a abolição. Assim, quando a música negra caribenha, identificada posteriormente como reggae, começou a ressoar em São Luís na década de 1970, as elites brancas viram isso com desconfiança. Inicialmente restrita às periferias, essa música rapidamente se tornou um elemento central nas festas e celebrações da população negra da cidade.
Leia também: Núbia Celebra o Reggae Maranhense em Show Especial na Casa Natura Musical
Leia também: Documentário Maranhense Sobre Reggae Ganha Exibição na Jamaica em 2026
Embora São Luís não fosse uma cidade segregada, para dançar e ouvir reggae era necessário atravessar barreiras territoriais e raciais. Com a crescente popularização do reggae, que já dominava as periferias, a música conseguiu finalmente ganhar espaço nos meios de comunicação e, consequentemente, na vida social da cidade. Essa inclusão, como observado pela historiadora Amy Absher em sua obra sobre o jazz, facilitou a quebra de barreiras raciais e territoriais, permitindo que o reggae se tornasse acessível a todos.
Com o reggae se firmando nas rádios, a identidade de São Luís começou a se reconfigurar. A reação das elites foi imediata, com colunas de jornais sinalizando seu desconforto em relação a essa nova expressão cultural que promovia o orgulho negro. Assim, a cidade passou a ser reconhecida como a “Jamaica Brasileira”, uma mudança que se consolidou ao longo do tempo.
A Revolução Cultural na Jamaica
Por outro lado, a história da Jamaica é menos familiar para o público brasileiro. Poucos sabem que, até meados do século XX, a Jamaica, com 75% de sua população composta por negros e pardos, era percebida como uma extensão da cultura branca europeia. Bob Marley, figura emblemática do reggae, destacou-se como uma voz que contribuiu para a construção de uma identidade negra no país, apesar de ter uma ascendência mista. Ele se firmou desde cedo como um símbolo dessa identidade, refletindo a luta por reconhecimento.
Ambas as localidades, embora distantes, apresentaram em suas histórias uma luta constante contra a opressão e o preconceito. O reggae, em sua essência, foi uma forma de resistência e afirmação cultural. Na Jamaica, movimentos como o rastafarianismo e outros esforços culturais emergiram no século XX, promovendo não apenas a música, mas uma verdadeira revolução cultural que reverberou em todo o mundo.
Em São Luís, a aceitação do reggae e sua incorporação na identidade da cidade culminaram na criação do Museu do Reggae em 2018 e na recentíssima designação de São Luís como a “capital nacional do reggae”, conforme a lei federal 14.668/2023. Contudo, o cenário atual apresenta novos desafios, com o surgimento de gêneros como funk e trap, que estão começando a se destacar entre as novas gerações e podem, no futuro, ameaçar a hegemonia do reggae.
O fenômeno das duas “Jamaicas”— a caribenha e a brasileira — ilustra a complexidade das disputas identitárias, que vão além das imposições das elites. A produção cultural, especialmente a música, tem sido fundamental na subversão de antigas referências coloniais, trazendo à tona novas identidades que celebram a continuidade da cultura afro-brasileira e afro-jamaicana.
